Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

ACNE, NÃO-ACNE  

«Alguém sabe o meu papel neste corpo?». Dirigia-se a uma normatividade lacunar. «Faço como tu, corpo, sento-me a teu lado sem saber que fazer contigo – satisfaço-te as necessidades, cá por cima sempre a dizer «eu», «eu», «eu», sem perceber o desejo ou a dor». Esse «eu» é uma abstração que a adolescência consolida. Cansa-nos, ver brilhar as coisas num espaço e num tempo que são apenas reflexos nos vidros da mente. Pouco nítidos, abertos à reinvenção, talvez por isso, seguram-nos e dizemos que o homem é a medida das coisas. A maior parte do tempo a sua presença submete-nos, neutra como se fosse apenas um ponto de partida para outro corpo que desejássemos. Nem lhe sentimos as células em tonitruante adejar insuflarem-se, o pensamento dissolver-se numa espécie de vidro líquido muito horizontal – que refresca, como se nos pertencesse o descanso do corpo. Recua-se. Na adolescência procurámos um diagnóstico sexual. Percebemos o logro inexorável do crescimento. Agora, é tarde: já somos atletas olímpicos. Assim nos estimamos e considero-me feliz por nunca ter tido aquelas erupções horrendas que afectam sessenta por cento dos adolescentes. Vinham do secretismo da masturbação. Era preciso pentear a carne incessante, o espelho dos assombros como uma abóbada em nós, maior que o firmamento. O champô obtinha derrotas efémeras sobre o óleo do cabelo, o crânio desprotegido das antinomias tolas. Para onde fossemos, uma polícia secreta escrutinava-nos e havia sempre por onde pegar. O futuro, de sentido incerto, vinha e ia por muitas direções. Não ter acne garantia a aprovação celestial das raparigas. Pareciam deter algo vital, um segredo que as irmanava que tínhamos de provar merecer. A entropia social, mais tarde, revelou-se um princípio ainda mais lato que o sexo. O presépio evaporou-se numa disciplina de questões mudas. Os reis magos pouco resistiram. O mar turvou. Era preciso manter um optimismo veemente que clareasse questões avassaladoras. A máquina acrobática da biologia dava a ilusão de um espelho exato que todos os dias se desfazia. Era o lugar do pai onde estandartes de uma sabedoria inerte ventavam. As certezas tinham densidades impossíveis de visitar; escoavam-se ao segundo olhar. Helénicos corpos de heróis suplentes, em cena exaustivamente, era o puritano enredo dos dias. As ordens tangentes à ordem, mera cascata de efeitos secundários: «Que dizer da espiral da vergonha, do seu obsceno fulgor?», perguntávamo-nos. «Que fazer da magia dos seus abismos? e da ficção de fama?». Muitas soluções vieram de menus vegetarianos, a crosta da carne penetrada por ideias contraditórias sobre saúde. Era o corpo a tentar controlar-se até uma demoníaca abundância acabar numa obstipação bem estimada. Não se percebe a tempo sermos o grande construtor da liberdade – Pinóquio de bússola, julgando-se Arquimedes com os seus instrumentos de normalização. Ninguém percebe como o boneco se pôs a funcionar, a barba a crescer, os sovacos investigados letra a letra como o resto da vestimenta, nem se percebe a direção que tomamos, tão sublime e racional – ou irracional. Não foi um logro o sexo, apenas uma grande doutrina da morte e da subsistência. Mordo o dedo. É um tique. Não adianta, mas mordo-o. Requeiro o corpo, nele uma imaterial circulação de sombras. As unhas lançadas à semana seguinte, cravadas num ninho obscuro, galgo aberto, ladrar histérico sobre o veludo do poema sacrificado no viril labirinto da vida. Não percebi como a adolescência acabou: de militante a gigante, a insignificante meliante, logo inativista arrivista, empenhado na sublevação dos nomes para fora dos factos biológicos inexoráveis. Tudo encontrou uma normalidade. Nunca tive borbulhas. A identidade acabou-se, assim construí o meu próprio homúnculo, o pleno direito ao anonimato num aparelho social anti-orgástico, existência desprendida reproduzindo a arqueologia paleolítica em formas aerodinâmicas. Por isto, acho misteriosa a adolescência, por inventar mistérios para serem mistérios, a única maneira de ser misterioso.