Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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AGOSTO PODE TRAZER-NOS SURPRESAS APESAR DE ESTARMOS DE FÉRIAS

   Agosto foi um mês quente e árduo, mas o notável foi a sua lenta aterragem como um estrangulamento: onde os prados eram verdes, tingiram-se a seco ouro, e também os corpos bailavam e se tornaram alvos fáceis, atreitos à imponderação e à mentira. Embora sem critérios sólidos, o que parece contar é uma vontade de levitação atingir níveis de saturação no vácuo do corpo compatíveis com uma espiritualidade autêntica cujas conclusões sabemos improváveis. As férias são cenouras. Mais um ano passou. O jogo repetiu-se. Fizemos como os heróis subjugados por poderes que não conseguiram vencer. Nós somos o coro do drama. Esperamos um novo agosto com uma espécie de esperança. Há uma inércia nas crenças, mas não são as antigas profecias que a alimentam, antes um desempenho superficialmente inteligente que, na realidade, está enraizado na desordem donde as soluções espampanantes surtiram. Tentámos selecionar as mais adequadas, mas errámos. Em férias, permitimo-nos variar os critérios constantemente. Tentamos com o prazer provocar um estonteamento que estremeça o eu – e que se estenda aos outros cujo terno calor depressa esqueceremos. Multiplicámos os encontros inesperados. Agosto é propício à fogosidade e nada do que então façamos terá consequências sérias. Uma parte da nossa natureza é robótica, seguimo-la e reprogramamo-la com uma liberdade excessiva. Programamos o gozo e o inesperado, mas a inércia e a monotonia introduzem critérios inamovíveis. O que resulta é monótono em agosto; as suas cores pouco se destacam das fórmulas cinzentas da nossa normalidade. Quanto ao mais, só na lógica de uma literatura nobel resolvemos algumas das suas bruscas transições. De repente, aparece-nos um nódulo num pulmão e é um sarcoma. A cirurgia não removeu todas as metástases. Nunca temos a certeza se chegaremos ao próximo agosto. Pelo menos com a forma habitual.