Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

ainda hoje não sabemos pensar o humano

O que é fascinante numa criança não é o que ela não faz, embora seja isso que nos faz rir e protegê-la. Rimo-nos porque a comparamos com pequenos adultos mutilados, rimo-nos da sua irrazoabilidade emocional e da sua desrazão semântica, rimo-nos do que ela aprendeu connosco, que nada de especial temos para ensinar, rimo-nos de como ela distorce o que somos tornando-se as nossas caricaturas vivas – e como nos fazem cómicos, nós, cinzentos funcionários da reprodução. Olhamo-las e não compreendemos como um tão pequeno corpo, há tão pouco tempo vindo do nada, já nos maravilha com comportamentos quase comunicacionais como se tivessem uma opinião sólida sobre o mundo. E tem-na. Só nesta fase são possíveis opiniões coerentes e fundamentadas sobre o mundo sem necessidade de se recorrer a entidades externas para fundar as nossas certezas. Esta primeira versão do pensamento positivo desenvolve-se estritamente pela exploração de relações de causa e efeito a partir da posição do observador. Embora próxima da indeterminação quântica, ainda não se perguntaram se alguém joga aos dados com o universo nem tiveram as certezas da mente humilhadas pela noção de probabilidade. Só quando as leis da sociedade se abatem sobre a criança (onde urinar, quando evacuar), usam a estatística para lidar com o aleatório das leis. Querem-nos achar justos e virtuosos, mas percebem-nos seres estocásticos, mentes estocásticas, economia estocástica, justiça estocástica, todo o sistema estocástico, contudo, as suas pequenas vidas tão contingentes, parecem-lhes inquestionáveis (ignoram como escaparam das vicissitudes do planeamento familiar). Parecem dizer-nos «Aqui estamos. Tomem agora conta de nós porque no futuro vamos mandar nisto tudo». Na fase seguinte começam a perguntar os porquês de tudo, como se quisessem pôr tudo em causa e temos dificuldade em lhes explicar que o «porquê» não é a pergunta certa pois remete para finalidades e intenções que ignoramos se existem e se são sinceras. Tentamos propor-lhes as forças em que acreditamos: a natureza como uma mãe bojuda que zela pela boa harmonia dos elementos e dos seres, mas a criança depressa se apercebe da desarmonia e chega a postular uma desarmonia essencial ao modo marxista, uma tensão de pequenas invejas keynesianas na comunicação e nas trocas entre as pessoas. Propomos-lhe a beleza como uma tendência geral do gosto e das escolhas cruciais, tanto entre os humanos como, de uma forma mais restrita ainda, nos animais, mas as crianças riem-se da nossa cara mal barbeada em pijama todo o domingo a ver futebol na televisão. Assim falha a tentativa de lhes impingir explicações metafísicas, embora mantenham o resto da vida um gosto por conceitos equívocos que exibem em tortuosos raciocínios de temática desportiva. Por isto, é com zelo que vão à catequese onde encontram, finalmente uma solidez lógica suficiente.