Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

ALGUÉM DE PASSAGEM  

Dedos admirados de um corpo, ao vento piparotes de enganos soltam. O pensamento (assim, verso-pão do «alguém» não referido que sustenta a ausência – e a demora) plana numa obsessão de preenchimento. Terno balão no oco de si varre os detalhes do sentido (encontra-o e perde-o). Escutar é partir com alguém que passa, alguém incluso no lume da frase que na memória articula a luz áspera das entranhas. A boca dos mitos abre-se à água das sílabas, semeia e acha sílabas nos buracos do mundo – e absorve-as na vontade de mundo: poema que os dentes trituram e no «alguém» da voz nasce (fóssil imberbe na musculatura da vontade erodido). O poema não tem de explicar porque demoro a abrir os olhos nem de proporcionar soluções para uma estética de assalto que sobrevoe o asfalto da vida (nem de ser a doença do paraíso e da predestinação no âmago da voz – uma alucinação amplamente). Aves acasalam no cume do cedro, os peixes lutam pelo pão que atiro: existe nisto uma beleza intrínseca? Apresentações indefinidas como se as grutas, os jogos, as teorias onde procuramos uma realidade suculenta dessem meia volta no sono do sexo e resplandecessem após. E se o «tu», quando se diz preparado para a palavra, perigasse? As formas que nele se cerram são saliências de uma sombra, alguém em mim – ou não, admirável.