Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

alguns dados para o poema da impermanência

O que se substancia entre as palavras? Como sei o interior da voz? Como se geram e o que representam esses «de mim»? Mim réptil à espera da palavra, «mim» sem história, tenor de «mim», «mim» com uma sobre-história de vulgaridades, «mim» homem-rã à procura do tesouro no navio afundado, «mim» no circo dos subúrbios tentando a magnificência. Refiro-me ao buraco que se escava nos fragmentos da história, mais doutros que minha. É a consciência esse «mim» que sabe da voz? O que aproxima o narrador da voz global? Então Deus sempre joga aos dados com o Universo? Mais uma vítima da linguagem – diria a um deus que me recebesse como um relâmpago ilumina as línguas incoercíveis da noite. Tento englobar tudo na luz das sílabas – papoilas guardando o vento e entorpecendo no silêncio. Assim, preciso da linguagem como do sangue que verto por ela num poema sem destino. Ninguém tanto estima a permanência das palavras, lambo-as uma a uma e quando alguém aparece com as suas metamorfoses – o pai, a professora dos primeiros signos, a amante – qualquer palavra é estro, quilha da alma, quilha da linguagem a sorrir ao mar e ao tempo na aura da viagem – mas navegar sobre a impermanência, com a quilha da impermanência? Deus dos dados viciados, ri-te comigo. No ritmo do mar, na aura do deserto, sê o narrador de mim. Conforma-te numa página extensa e legível e que as tuas mãos arrepanhem a alma apaixonada pela própria sombra no fundo do mar. O que entre ambas se substância gera a voz do «mim» e, na antítese de mim, o narrador de mim – títere da sua luxúria. Justifica-se o narrador com um instinto sexual no vazio entre as palavras – uma quase justificação.