Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

animais selvagens

Hoje assistimos à natureza mais espetacular. Conhecemos pessoalmente muitos animais notáveis e podemos assistir ao seu desempenho íntimo, não só às manobras reprodutivas, em geral, um tanto brutais pelos termos humanos, mas ao esquartejar e ao devorar de uma presa, ou ao cuidar das crias, ou aos ritos de domínio. Neste filme, «Pai», um elefante africano de 26 anos, líder do seu grupo, está a ser desafiado por um jovem cheio de testosterona, mas vence-o com as suas manhas (experiência de vida e de outros combates). No passado sempre venceu, supomos, mas nunca antes pôde um europeu urbano assistir a estes detalhes sociais dos elefantes, logo depois uma extensa reportagem sobre espetadores que caíram nas jaulas dos animais, nos zoos. No zoo de Reno, um rapaz de 6 anos tombou na jaula dos gorilas e foi protegido por um deles, o «Zunga» até ser retirado da jaula pela CIA e entrevistado, ainda a quente, para uma grande cadeia de notícias. Também uma senhora quis fazer um autorretrato com um tigre de Bengala e magoou-se. O que está em causa é a familiaridade com espécies obscuras graças a um voyeurismo transbiológico que nos apresenta a prosaica dramaticidade de comportamentos que só conhecíamos na nossa espécie e, de uma forma ridícula, nalguns animais domésticos. Agora, vimos nascer uma girafa e um urso polar que aproveitam o nosso embevecimento para nos expor as dificuldades com que se defrontarão nos seus domínios, agora sujeitos a um ordenamento humanizante. Antes os animais apenas apareciam fugazmente na floresta e era um momento fascinante esse encontro: olhávamo-nos e eles desapareciam. Os caçadores perseguiam-nos e tentavam matá-los, mas era a mesma ignorância recíproca. No mar, a aparição do cachalote nadando soberanamente; o oceano é a sua escala e ser menor que os seus vinte metros é um vício estético. Da mesma forma, um rinoceronte com o seu medieval sistema defensivo ou uma arara com a sua colorida retórica. Também a nós nos prejudica a plumagem simbólica da retórica sexual e dos seus correlatos na hierarquia de domínio. Para quê dominar em vez de viver a própria obra intensamente como um autista social? Para quê uma galeria de retratos de estadistas sobranceiros em contra-mergulho, numa posição que acentua uma desacreditada magnanimidade? Parece ser tudo o que os estadistas querem reconhecido: no retrato equestre de Filipe II pintado por Velasquez, nas estátuas colossais dos faraós, nos túmulos dos imperadores chineses enterrados com a família, criados, o próprio exército e a respetiva logística de carroças e barcaças como se a eternidade não fosse substancialmente diferente da vida terráquea. Assim como lemos sobre a vida íntima de uma família neanderthal, também sabemos muito da vida sexual de Filipe II e sobre o seu inconsciente mais ativo, mas não se compara com o que agora sabemos da vida selvagem. Todo o seu acontecer foi desvendado e documentado como se estivesse na eminência de desaparecer ou de ser remetido para os zoos. Entretanto, fascinamo-nos com uma teia de aranha que em dez segundos nos explicam como é feita ou nos mesmos dez segundo podemos ver um botão de roseira rebentar e a rosa surgir magnífica e já rondada por uma abelha também em extinção. Todos somos primos e ora nos aliamos aos cangurus contra uma praga de gafanhotos ora aproveitamos a sua tecnologia de saltos portentosos para propulsionar naves estratosféricas. A nós ninguém nos conhece como nós a vida selvagem, a nossa vida é monótona, atrás dos ecrãs e, quando os deixamos para as tarefas básicas de manutenção do corpo não somos diferentes do rinoceronte. Concluímos que algo está sempre a acontecer, ou a adquirir valor, ou a perdê-lo, e se acontecem sobressaltos destes ou uma patada do tigre de Bengala é porque não conhecemos tão bem assim a intimidade dos animais. Também a nós pouco interessa o que nos vai no pensamento; antes de refletir, passamos ao autorretrato, ou à posse ou à imagem como posse. Deixamo-nos ir nestes truques da vanidade que nos facilitam o não pensar. Em qualquer caso, quando observamos a vida animal comprovamos estarmos demasiado afastados do tigre de Bengala e demasiado aproximados do gorila Zunga.