Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

as bebidas fora de moda

Muita gente nunca bebeu absinto nem passou por pelas experiências limite que transformam um homem com a sua adolescência à espreita de uma oportunidade, num desesperado tranquilo, dependente de drogas, preparado para resistir a todos os fracassos da racionalidade, incluindo massacres, estupros, guerras atómicas ou regionais, sem se deixar afetar no seu hábito diário – de consumir drogas. Experimentar drogas dá-nos uma nova noção de contingência: tudo o que parece acontecer pode parecer acontecer doutro modo e essa quase evidência imiscui-se no que queremos que aconteça. Não é que isto seja pensar ou, ainda que o fosse, que seja um pensamento conclusivo. É, sobretudo, uma forma de ter o cérebro ocupado e não sentir o medo. Dizemos amor à vida ou a alguém ou até patriotismo, mas é medo; são as diversas profundidades a que o medo abalroa as equações da sobrevivência. O rombo no casco é um impacto inesquecível que cria, ele próprio, novas oportunidades de sentir o medo, de nos imaginarmos a afogar numa gigantesca taça de absinto. Ao entorpecimento ébrio opõe-se um feroz sobressalto, imagens de Hiroxima, espinha acima; espinha abaixo, um esfriamento como se entrássemos num campo de extermínio e já nos considerássemos sub-humanos e abertos a discutir o assunto, mas a ocasião é a de um instante de concatenação de todos os sentidos, de todas as coisas previamente pensadas reunidas numa soma algébrica decisiva. Não acompanhamos o processo pela rapidez com que decorre, mas gostaríamos de não assistir ao veredicto, ou, ao menos, de o podermos amortecer com um copo de absinto.