Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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as bocas do corpo

Não conseguimos formar uma ideia uniforme sobre as aberturas do corpo. Enquanto os buracos da montanha, onde têm início vários caudais, cabem todos no conceito de «nascente» (referem à ágil mobilidade da água descendo, rolando, irrigando, contornando, saltando (a cascata ou a barragem), espraiando-se já com majestade perto do encontro com o mar), ainda que se situem a altitudes diferentes e com orientações diversas, os buracos do corpo não se definem pela avidez nem pelo desprendimento. Conceberíamos novos buracos no corpo como concebemos outras nascentes na montanha? Estas novas nascentes modificariam a paisagem da montanha com os respetivos rios rindo pelas escarpas abaixo, mas seria a mesma montanha e não teríamos de alterar o significado de «nascente». Os novos buracos do corpo serviriam novos sistemas de tecidos ou novos aparelhos de novos órgãos com novas funções em humanos ainda melhor adaptados à abundância de informação, aos novos cenários da realidade, às novas necessidades do mercado. Os novos buracos multiplicariam as funções dos já existentes permitindo melhorar o desempenho, ou melhorar a assimilação, por exemplo, uma segunda boca que poderia conversar durante a refeição com a boca antes existente, esta insistindo nas suas opiniões reacionárias contra as sugestões de mudança do pensamento da nova boca, ou uma boca especializada em chocolate ou em vinho e capaz de retirar ainda mais prazer de um número maior de papilas gustativas. Inventar-se-iam novos vinhos e novas espécies de cacau. Ou outra boca, esta especialmente adaptada ao sexo oral e que nunca se gabasse, por uma questão de bom-gosto, das suas experiências. Seria concebível tal boca meramente como recurso erótico ou representaria um prolongamento do aparelho reprodutor, os testículos articulados com a respetiva boca que faria o sémen chegar aos ovários no caso de uma relação heterossexual (cunilingus}, ou a boca feminina que sorve o sémen (fellatio) ligar-se às trompas de Falópio de modo a fazê-lo chegar rapidamente a um óvulo mais atento? Podemos aplicar este raciocínio à audição (ouvidos especializados em Sofia Gubaidolina ou em Ligeti e ouvidos especializados na maledicência, outros para a linguagem dos estalidos dos Khoikhoi e ouvidos para sepultar segredos). E os outros orifícios, perguntarão, não seria mais relevante focarmo-nos neles: ânus adequados à expulsão de materiais separados conforme a sua utilização em reciclagem: ânus para proteínas que poderiam produzir gazes combustíveis, ânus para expulsar celulose e fibras reutilizáveis em adubos e estrume, ânus adaptados à obstipação preparados para clisteres, talvez até ânus musicais tal como a boca assobia. Os homossexuais analistas ignoramos que sugestões têm ou se já analisaram as vantagens desta perspetiva do corpo, pois em relação à vagina propomos deixar as coisas como estão para não corrermos riscos culturais intervindo numa relação entre géneros que por vezes custa regular de uma forma aceitável para ambas as partes.