Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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AS CONDIÇÕES ESSENCIAIS  

A vida não nos impõe quaisquer condições lógicas e, contudo, a vida é uma estrutura animada por uma lógica muito versátil que tolera contrários, que tolera desorganizar-se, suplantar-se, esvair-se e voltar a si ou sintetizar-se num poema ou num caminho escarpado que indique «verdade». E que tolera o erro: chegar e «verdade» ser um espantalho ligado a um microfone que repete palavras aleatórias. Ainda ignoramos se é virtude das palavras elas configurarem sentidos dentro da nossa cabeça como se as suas intrínsecas afinidades e repelências excluíssem os mundos implausíveis, ou, simplesmente, assintáticos, ou se somos nós que usamos mal o cérebro. Condicionámo-lo a aprender o que é episódico e inútil, a atirarmo-nos para o chão aterrados como traumatizados de guerra à espera do arrebentamento do mundo, nada nunca estoira e continuamos a assustar-nos e a acreditar no que aprendemos de uma forma mais ou menos traumática. Esquecemos que a lógica da vida, sendo versátil, não garante nada, muito menos garante a vida mesmo que as conclusões que tiramos sejam bem formadas. A morte não é facilmente explicável, mas sempre percebemos que a vida se pode tornar insustentável e aceitamo-la resignadamente, mas isto não é uma explicação. Como a vida se insinua na matéria a partir de um mínimo que o prazer também não explica, assim também a vida se retira deixando uma estrutura corrompida pela própria utilidade da saúde. «Saúde» é um conceito claro e sensível, mas não significa apenas as condições cuja ausência propicia a morte, significa um caminho que a vida deve percorrer para se satisfazer. Poderíamos, nesta acepção, chamar-lhe verdade, mas seria abusivo. Muitas vidas nunca a procuraram, olham-na com desprezo como se só funcionasse com ingénuos ou com lunáticos, mas «verdade» deveria reunir uma carga de vitalidade e de certeza que não existe numa vida individual seja lá de quem for. Individualmente, quem não está sujeito ao erro, à mentira, a falhar os seus propósitos por uma inesperada desonestidade? A «verdade» comunitária é verdadeira porque é comunitária. Porque a verdade resiste e, se é uma verdade individual, só se torna verdadeira quando é comunitária. Mas convém à vida esta verdade que suporta a comunidade que é uma construção desligada da vida como a termiteira é desligada da rainha-mãe? No entanto, é a única pós-metafísica possível.