Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

AS CONDIÇÕES POLÍTICAS DEVERÃO SER INTRANSIGENTES  

Proponho gritarmos bem alto (mostrando-nos, também, persuasivos): «Viva a indústria dos enigmas e os seus dispositivos de indisciplina!», «Viva o ócio celestial reciclado em sonhos pragmáticos!», «Viva a investigação do inútil e de todas as suas classes operacionais!», «Viva a teoria do nada e da ocupação do deserto olímpico!», «Viva a queda dos paradigmas num abismo criativo sem fim!». Pode nada acontecer ou limitarem-se a chamarem-nos loucos ou reacionários, ou falarem-nos ao microfone de justiça e de felicidade como se fôssemos deuses salpicando palavras expansivas. Podem tratar-nos como simples esquiadores de pernas partidas, impreparados para a vida política, mas podem mandar-nos para o degredo por sublevação da ordem zoológica como se os deuses fossem susceptíveis às nossas palavras de ordem. Precisamos de esconder o terror mais fundo do que a morte o permite. É verdade que a política aterroriza: nos seus pântanos lúgubres quantos cadáveres tumultuam? Nos seus acirrados circuitos, quantos conluios traiçoeiros? Nos seus programas, quantas hienas se masturbam orando aos deuses da castidade? A inteligência não escapa à vanidade do pai sem rosto que nos infeta a mente e eles lá estão, enfatuados com a sua pesporrência de capoeira. Como pulgas num alfabeto desconjunto, falamos com elegância da nossa vontade de vómito. Enterrada numa sopa de cores, a voz enobrece. Unhas na garganta cravadas, a causa do mundo perde-se. Esperávamos uma ornitologia ordenada como as notas saíam de Mozart e deparamos com sarcasmos literários e surtos de sucessos lambidos. O terror de amanhã está garantido – estamos adaptados. Cerrámos o saco de memórias – que adejam pela doçura retesada dos vales férteis. Concentramo-nos numa forma autêntica e voamos – júbilo aerodinâmico das primaveras numa literatura longamente preparada, mas ignoramos o que a salva. Por isso, gritamos: «Viva a indústria dos enigmas e os seus dispositivos de indisciplina!» Dizemos-lhes que observem o encontro rápido dos amantes, o seu celestial ócio reciclado em sonhos pouco pragmáticos. Façamos que, no lugar do continente afundado, a ilha germine de um abismo criativo sem fim. Só então nos calaremos.