Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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AS DOENÇAS DAS PLANTAS

AS DOENÇAS DAS PLANTAS «Não suporto mais o leitor. Não suporto a contingência de o adivinhar no próximo verso, de adivinhar o próximo verso fixado nos seus olhos suplicantes como os da minha cadela «CNN-23» que morreu com esgana quando queria ser salva». Não se pode escrever poesia embasbacado na corporalidade de uma compreensão alheia: as imagens condensam-se como os vírus usam o nosso interior com paixão secreta e destrutiva, nós passivos numa posição filosófica abissal. As decisões (literárias): tentamos ser meigos e domésticos como cães com as vacinas em dia. (Propriamente, a escrita:) passeamo-nos pelas falésias íngremes parafraseando o Primun non nocere com a ideia de não nos estatelarmos nos rochedos ao apontar o barco afastar-se. É, também, a posição do leitor: parte de uma exatidão precária – aponta o que está além para que a replicação o inflame, lhe preencha propositados músculos inativos, para que, numa fé aberta, o amor repouse e a angústia do futuro adormeça: «Desapareço levando os versos nos pulmões sufocados, levando no sangue a água salobra dos meus poetas e exalo este poema para ouvidos adormecidos ou inexistentes». Prometeram-lhe a personagem principal da novela «Rima Bruxuleante», a ele ou a qualquer outro leitor que bruxuleie com a poesia; graçolas da piedade pública a escorregar sobre as gabarolices poéticas no proémio do imperativo categórico. Como os poetas, ele pratica um cinismo à defesa, mas não esqueçamos outras estratégias de glória mais eficazes. Uma quase-inexistência é uma virtude tão ativa como a hipergrafia. No exterior de ambas as condições necessárias não são suficientes. Um poeta não é um hipergrafista, mas o sujeito pré-verbal de uma consciência que não se pensa ou que não se pensa como alguém existindo tão só como um ator de sínteses muito sucintas. A consciência é este sentimento de incompreensão espácio-temporal: «Não posso passar todo o dia como um anatomista a pensar em mim ou como Kant a tentar ir além da linguagem, dos seus dotes, da sua cinematografia pouco convincente. Talvez nem mesmo com a poesia».