Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

AS EVIDÊNCIAS NÃO SÃO TODAS IGUAIS  

Abrir a janela e cheirar o vento como os cães cheiram as suas partes e fazem diagnósticos cruciais. Pelo contrário, a maior lua do ano é previsível e, se é noticiada e festejada na China, é para nos confortar com a evidência de as coisas serem regulares e estável o mundo. Precisamos de acreditar que as suas condições não vão mudar, que continuará habitável embora, neste caso, seja preciso acrescentar à descrição da lua, o seu envolvimento por nuvens negras que surdem dos ciprestes do cemitério na colina em frente, mas é preciso fazê-lo sem dar às palavras um tom tétrico de filme de terror com o psicopata de serviço uivando no alto da colina ainda convicto das suas razões. A lua eleva-se, separa-se do negro do horizonte, o firmamento branqueia-se, o mundo clarifica-se, percebe-se o valor premonitório e funcional de cada coisa e a lua, como favorece o amor. São simples os mecanismos e é inútil atribuir-lhe qualquer tipo de magia: é o luar que favorece as aproximações furtivas; num estado de excitado entorpecimento qualquer dito adquire ressonâncias poéticas, mas saberão os amantes onde querem chegar caminhando numa iluminação de penumbrosas sombras ou percorrem às cegas um caminho inscrito na sua própria escuridão? Como o poeta, mas o mundo à sua frente não o escuta; o mundo quer casais bem formados que vivam em paz e sejam felizes enquanto as políticas demográficas variam. Hoje, o estado arroga-se o poder de decretar quantos filhos cada casal terá; também o de colocar impostos pesados sobre o consumo de álcool, tabaco, açúcar, hashish, mas não sobre as alfaces, nem sobre o exercício da bondade, nem mesmo sobre o futebol que é tema de interessantes e disputadas conjeturas onde se alude à sorte e à fundamentação da justiça. Raramente, hoje, cheiramos o vento, raramente lemos os seus auspícios, raramente seguimos a sua força e direção; o vento é uma forma irregular e imprevisível, verga as árvores, corrói a montanha, derruba os artefactos que ousam a altitude. Despenteia-nos, leva-nos o chapéu, ficamos sem saber se vale a pena pentear-nos de novo quando amaina, se alguma coisa nos cairá em cima ou o que se seguirá. Mas não são assim todas as forças invisíveis, muitas movem-se mais rápidas e deixando menos indícios. Sobre a aparição da maior lua do ano, pouco sabemos do porquê das coisas regulares; prevemo-las, mas deixam-nos estupefactos quando acontecem conforme previsto. Como se os nossos diagnósticos cruciais deixassem um resíduo de incerteza ou como se a mente que os processa desacreditasse da mente que os realizou enquanto os cheiros chegam ao cérebro de uma forma fulminante que não nos deixa hesitar. Portanto, para concluir, podemos dizer que, embora a evidência seja indubitável quando nos surge, há evidências incoercíveis que defenderíamos tenazmente, enquanto doutras dizemos «sem dúvida», mas duvidamos como hipótese – apenas esperamos que nenhuma outra evidência a derrote.