Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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as grandes amantes

«Gostaria, meu amor, de saber dar-te quanto o meu desejo te quer, gostaria de possuir a chave de todas as saciedades e escondê-la-ia para que me procurasses sempre como um adolescente, gostaria de todos os dias descer a escadaria do paraíso para nunca esquecer a tristeza de não te ter, para nunca esquecer a alegria paradisíaca de te ter, gostaria que o paraíso fosse eu aberta a uma eternidade ruborescida pelo desejo e as mil vezes que sobre mim viesses fossem coros de anjos louvando as primaveras mais férteis. Mas a minha beleza não chega ao tanto que te desejo, não chega para o que te quero nem para o quero que me desejes, não chega como aparência para a renovação do mundo que o nosso amor exige. Ele é a pura exaltação do coletivo em que nos fundimos persistindo cada um o calor claro do tempo. Precisamos de todos os mundos futuros numa euforia criativa que nos reverta os corpos e se materialize em todas as utopias que pensarmos. Os corpos nunca se amansam como o mar intransitável dos cabos que se adentram no oceano. Nesse desassossego a beleza cresce e esfuma-se nas nossas mãos de artifícios como esculturas de filigrana e fogo. Gostaria, meu amor, de saber qual o nosso futuro, se este plural com que nos designamos se acimenta e enraizará como um palácio cresce nuvens acima ou se a própria intensidade, como os vulcões se extinguem, levará à exaustão e nem as palavras do outro compreenderemos. O que serão as horas sem o tema da vida, nós como pescadores num oceano contaminado em que não acreditaremos? O que será cada minuto fechado sobre si; o amor como um aquário cada vez mais miniaturizado, cada um de nós como peixes robot paralisados nas suas próprias recordações? A mente nunca se amansa, ávida de uma certeza vulnerável, todos os alicerces que procura, no derradeiro passo do seu alento, sucumbem, castelos de cartas de um jogo mortífero. Ó meu amor, como ainda assim te amar?».