Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

as imagens substituem e desaparecem

«Uma nuvem galopa numa pradaria azul e o seu rumo nem o vento o conhece»: é claro que um valor referencial que procurássemos se perdeu na música das imagens, mas dizer que o vento não impulsiona a nuvem exige de nós um especial esforço de leitura conquanto esta terá o corpo atuado por forças que, não sendo o vento, não imaginamos quais sejam. Assim a música tropeça numa dissonância grosseira ou, em alternativa, obriga-nos a aceitar que a nuvem tinha um dispositivo interno semelhante a uma vontade o que implicaria mecanismos poderosos responsáveis pelo aspeto dos céus em certos dias de primavera quando a luminosidade é tão intensa que temos de, por instantes, fechar os olhos e, quando os reabrimos, já a nuvem avançou no seu movimento como se galopasse numa pradaria azul. Poderíamos defender que não existem metáforas ou que, tal como as nuvens brancas do verão desaparecem no firmamento, também os termos da metáfora logo se reconfiguram num sentido próprio com um grau de realidade superior ao de uma imagem. Quando enchemos com hélio um balão, haverá um momento em que a criança tende a ir pelos ares – é a dificuldade da poesia: manter os pés na terra quando as suas palavras se elevam entre abstrações sempre mais poderosas. São inevitáveis os momentos em que os pés se soltam do seu peso. Numa sinfonia todo o ruído da existência, incluindo o tráfico da cidade, os seus patéticos concertos de rua nas noites de sábado, os mecanismos das fábricas e os tratores pelos campos sobrepondo-se ao chilrear dos pássaros e aos ruídos da água nas pedras do riacho, todo o ruído dos sentidos e todo o ruído do nosso próprio corpo se alienam das suas significações, até da melodia que dizemos existir quando estamos otimistas com a situação do mundo. Quando as significações esvanecem e dizemos «É música» é porque os sons se reconfiguraram e entram na mente para um mundo com outro tipo de erros e imprecisões.