Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

AS MELHORES CONDIÇÕES  

Quando uma criança diz «Agora não», capturou uma expressão para lidar com o presente com a qual parece selecionar a oportunidade das coisas. Muitos de nós sacrificamos o presente por um passado que queremos respeitar e cristalizamos nele como trilobites ou sacrificamo-lo por um futuro que alguns localizam além da vida num espaço onde o tempo é instantâneo e perfeito. Quando a criança diz «Agora não» está a usar a complexidade da linguagem com total inconsciência do passado e do futuro. Ela não se concebe como sujeito da recusa, apenas na confluência de uma linha de arbítrios à qual não lhe parece conveniente corresponder. Trata-se de uma posição inegociável diferente do nosso entendimento de «Agora não». Ela não concebe um futuro, logo não concebe onde possa ocorrer o que agora recusa. Quando nos propõem visitar uma venda de tapetes em Fez apenas para o prazer dos olhos, já sabemos a pressão comercial a que vão sujeitar-nos. Adiamos a aceitação do convite: «Talvez mais tarde», mas pretendemos escapar para sempre, até mesmo por causa de uma incómoda alergia aos ácaros. Mas «mais tarde» pode significar a preferência autêntica por uma ocasião propícia: «Ainda não estão reunidas as condições», podem responder-nos assim a um convite amoroso depois de uma noite bem passada. Trata-se de uma recusa parcial envolta numa esperança e numa crítica a qualquer coisa que falhou no nosso comportamento, longe de ter sido apaixonante como chegámos a pensar. A criança não acredita mais que nós nas determinações do destino: «Agora não» deixa tudo em aberto, repitam-se ou não as condições presentes. A vida se não for por aqui, irá por ali ou por outro caminho que faremos com uma exagerada consciência da liberdade de o termos escolhido. Poucas vezes poderemos dizer «Ainda não estão reunidas as condições»; em geral, são as condições que afloram na planura dos dias e seguimo-las. Quando a criança diz «Agora não» tem uma intuição dos mecanismos da vida ainda não distorcida como a nossa por uma sobrehumanidade equívoca.