Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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ÀS MULHERES FÁCEIS COM NOMES ESTRANHOS, ÀS DIFÍCEIS E ÀS SEM NOME CONHECIDO 

Chama-se Mécia? Esse nome não me é estranho. Um nome estranho têm algo familiar, uma necessidade de matéria mal localizada. Habituamo-nos a levá-lo à boca, a apregoá-lo. «Mécia», um patronímico ávido – imagino-a bulímica, a elegância arredondar-se, atingir trezentos e quarenta quilos imobilizada no leito, terem de limpar-lhe o ânus como a um bebé elefante, ela sempre a comer ou incapaz de mudar o nome. Nela, a ancestralidade do corpo é um dicionário de astros extintos – étimos retirados ao pai, à mãe ou a lá quem esteja ainda mais atrás. «Mécia»?, tilintam os mecanismos do nome, projetam-no para diante abrindo um caminho igual ao de outros nomes iguais. Personagens de um bronze maciço revestem-lhe os labirintos, sugam-lhe o miolo do ouro, preenchem-no de chocolate. Mécia surge, frondosa e necessária no espaço entre as palavras. O imprevisto rotundo e inebriante de um nome repleto de felicidade predispõe-nos aos lugares comuns: o bilhete da lotaria tem a terminação, a logística de um campo de concentração, um pino. Ela, já observada pelo médico cuja conversa fiada nos irmana como um nome estranho. Os alter-egos entram pela escotilha, fechamos os olhos com naturalidade ao mergulhar, mal preparados para apneia tão labiríntica. Com voz infantil de respondedor de mensagens telefónicas, ela propõe um prazo para se reconfigurar; o médico dá-lhe um prazo para rejuvenescer, para aprontar outro reinado. Diz: «Pagaram os impostos? Tranquilizem-se, imaginem voltar a correr pelas dunas de mãos dadas, mergulharem juntos numa onda, fazerem um filho». O marido responde: «Mécia? Se lhe fizesse um filho não seria nada que me evocasse o arremesso, como um bailarino ou uma catapulta, antes a duração de uma viagem através do Parque de Diversões soltando muitos Xis e alguns Ípsilones às bocas peganhentas, muitas chupando neve doce o mais que podem». (As crianças absorvem ideias com uma fama insignificante). Agora, damos ao amor um tratamento insolúvel, agonia e êxtase da agonia, réplicas de sismos, de sinos ora ternos ora a mama da mãe pendurada num boneco de arame farpado: Mécia chupa, chupa, chupa, chupa sem parar, uma raiz maligna que, como impossível de estimar, atravessa o arame farpado, atinge a sua escarpada casa onde a presença de um crucificado, a sua coroa de espinhos lembrando a generosidade dos favores ser uma tortura justa ou injusta. Mécia chama-o rei sem reino; a sua imagem conforma-se sobre a minha de autor. Denominamo-la «Para-Mécia»; o nome da mulher soltar-se-á no final do poema. Um conluio de sonoridades siderais mendiga o preenchimento dos espaços em branco num requerimento a alguém que diga o que não é real. Até «Mécia» marca um paraíso local: «Por veredas escarpadas sobre os vales, só e oco», umbigo por onde entrassem os que vão nascer, mas poderia ser «Cirene», não sirene, mas um autêntico apelo ao médico, que proporcione tratamento solúvel ao amor, as calorias universais distribuídas pelas sílabas do nome, sem mais nem menos metafísica – assim: o lugar do nome «Mécia» na gaveta da cómoda, com o retrato adolescente, manuseio ágil da abundância de corpo dúctil ou o lugar de «Mécia» no frigorífico, na caixa dos legumes onde as couves apodrecem mais devagar que rugas no veludo da carne ou o lugar de «Mécia» na prateleira das compotas difíceis de abrir e dos amendoins já descascados. Será celta, latino, islâmico, bramânico, o étimo? ou o lugar de «Mécia» no congelador, com as carnes, o xadrez de apitos transoceânicos na música do radar, o nome de uma infecção em simbiose crónica na escala das paramécias. Eu perco-me dela, ela perde-se nela, ela perde-se de nós.