Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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as necessidades semânticas

Aplicar «higiénico» ao objeto «papel» para mencionar o dispositivo usado na remoção do sujo do corpo parece exagero. Deveríamos reservar a designação de «papel higiénico» para pessoas ou instituições cujo desempenho (papel) foi notável a favor da saúde humana. É esse o sentido de «higiénico», promover a saúde, dos humanos em particular, no sentido da boa vida e da felicidade. Claro que este desiderato passa pela limpeza dos odores pestilentos, mas coube a Pasteur chamar a atenção que as lavagens deveriam incluir a neutralização de inúmeros agentes patogénicos inodoros, ou seja, que não nos devemos restringir a limpar as zonas que se contaminaram com o sujo das fezes, mas lavar as mãos, e os dentes, e a cabeça que muito facilmente se contamina com ideias inúteis, e lavar o corpo todo, e lavar tudo. A Pasteur, merecidamente pelas suas descobertas, aplicamos a designação de papel higiénico ao muito que lhe devemos, mas não a Rabelais que salientou o conforto das penas de pato limpando, nem ao industrial americano que patenteou no final do século XIX um papel perfurado e vendido em rolo que veio a globalizar-se como dispositivo de limpeza. Contudo, é preciso não esquecer os esforços anteriores para manter esses orifícios limpos, seja com folhas de hortelã, areia, trapos, farrapos e serapilheiras, etc. e nunca dissemos hortelã higiénica, areia higiénica, trapos higiénicos, farrapos e serapilheiras higiénicos pois «higiénico» é de uso recente e desde muito antes se usa limpar o ânus sem que isso represente saúde e felicidade. Portanto, «higiénicas» são as vacinações e as campanhas para a salubridade da água e «papel higiénico» deverá designar apenas o desempenho dos políticos cuja demagogia faz as pessoas julgarem-se felizes.