Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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AS NUVENS NÃO SÃO MERA HUMIDADE  

As nuvens passam rápidas com a sua pesada carga. Passam e os seus elementos recompõem-se perante uma distribuição dos aspetos que convém à ciência e aos matemáticos. Os meteorologistas complicam as coisas com uma necessidade de precisão que não é geográfica nem divina. Quando notamos as rápidas nuvens, malgrado a sua carga, não encontramos ainda nas suas formas nenhuma significação e ficamos por esta apreciação quase-estética, mas um matemático não deixará as coisas assim: tentará uma inequação em que as variáveis não estabilizam o seu valor como o destino faz com os humanos – tolerará valores diversos e reconduzi-los-á ao mesmo valor exatamente como num pote de diamantes em que não encontrássemos o respetivo brilho. Como os números, os indícios têm que ser polidos. Podemos estar certos dos vaticínios que extraímos das formas das nuvens, não apenas se choverá, durante quanto tempo, qual o tipo de pingos e se serão precedidos de granizo durante a madrugada; verdadeiramente indícios de uma forma do acontecer que sofre as mesmas determinações. Estou nos Açores. Olho para as nuvens e digo «São belas», os matizes de cinza espatulados em verticais oscilantes junto ao horizonte como se a água roubada ao mar dele em definitivo se separasse por uma barra branca como natas sobre chocolate. Reduzir a números e a pressões as configurações das nuvens em vez de delas extrair uma quiromancia cósmica, reduz-nos a formigas cuidando do formigueiro. Dizem no fundo do olho existir o mesmo que na palma da mão no sentido de em ambas as estruturas o futuro existir inexorável. Portanto, podemos pensar que as linhas da mão que determinam o fundo do olho onde a paisagem das nuvens no mar se projeta, são as mesmas linhas que determinam as nuvens que passam rápidas como as coisas que agarramos e largamos pela vida fora. Não é simples assistir às nuvens a passarem rápidas, deixá-las conformarem-se e partir sem as ter envolvido numa teoria do conjunto por singela que seja. Todos os seres existentes têm direito a integrá-la pois o universo é uma família de aspetos e cada aspeto articula-se com os outros aspetos por uma teia de micromotores, hilariantes uns, explosivos ou eróticos outros, outros ainda são disposições ao desaparecimento ou, até, ao aniquilamento. As nuvens passam como nós passamos pelas outras pessoas cada um de nós com a sua pesada carga e ou sorrimos e largamos um «Bom dia», ou damos um discreto encontrão se o outro não se desvia, ou ajudamo-lo com os sacos das compras; de qualquer forma, trocámos ínfimas partes da nossa pesada carga. Tal como os elementos compõem as nuvens, nós produzimos uma configuração social que com o nosso pensamento fala do que já existe (uma dor de fígado, o aspeto do céu, a baixa-política parlamentar) ou da esperança que alimentamos para o que virá a existir (a cura da doença, a paz, a felicidade universal).