Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

AS RENITÊNCIAS DO SIM 

Escrever é uma inserção no ciclo dos dias, um compromisso como ser vegetariano. O autor é uma sombra e tem de explicar porque escava as luas do ritmo e como faz, ao piano, os dedos espremerem as sílabas de uma lamechice poética incongruente. A ideia do «riacho» consegue capturar o cantar das aves que recolhem ao crepúsculo, satisfeitas com a nidação no chocolate das nuvens (chupar o texto como um rebuçado). Cantar era o mundo espumando numa epilepsia de rosas, eram peixes barítonos que, em surdina, revelavam (no sentido de o texto pôr a nu) os enigmas das grandes forças – o vento, as vagas, o vulcão (no sentido de o texto rasgar o nome dos deuses, de desenhar as próprias virtudes e, noctívago, exercê-las). As imagens satisfazem a significação e o que nessa amnésia se perde deposita-se num jardim de bibliotecas em erupção. Perde-se energia pelas palavras (as que se rebelam, as que exageram, as que cristalizam no movimento e dançam). A escrita procura o autor numa pose sumptuosa – ele dança, dança a dança dos amores alucinados que nunca acontecem. Vestida de um leite paradisíaco (atenção à introdução da personagem), à frente de rainhas e imperatrizes, vinha de âncoras e hífenes, vinha com os cumes de penhascos onde a terra soçobra e o mar inverte a luz, círculos de luz lenta. Eram dinastias de si a sua presença breve (cada texto constrói a sua autenticidade; a personagem extrai-se do ritmo do riacho, comanda a esquadrilha de versos num sonho de coisas paradas e felizes). Nos píncaros vencida demorava-se em auras de heroína cantarolando o sémen do poema. O eu escondido, ela voeja e resplandece, loopings pintalgados de suave ironia. As rugas piezoeléctricas da contemporaneidade soltam memórias de orgias. Ela era sangue e zebras escorregando do fogo que ribombava. Pânico. Agora que partiu com o exército vitorioso, (o texto gera o epílogo, uma residual nostalgia) sentimos o alívio e o vazio das celebrações – saque vazio, o amor desce aos alicerces dos castelos mágicos da alma (pleno saque as células onde a vida se guarda para desígnios longínquos). Quando nus despertarmos, tudo o que fora dito está por dizer: as cascatas, os sorvedouros, os ninhos, pois, enquanto se constrói, o texto são as cascatas, os sorvedouros, os ninhos dos animais subterrâneos da imaginação. A primavera galopa pelo corpo do autor, depois, chilreia no nosso e alegramo-nos (tudo metáforas; apenas perceber que não renasceremos como os narcisos do museu: a interpretação do texto). Mas continuamos contentes porque a sintaxe da vida, ao rolar na plateia do cérebro, esgrime a vida na ponta do bisturi. Pode mesmo ser dor, mas o sorriso do triunfo (escrito) permanece. Os ciprestes tocaram as nuvens. Lemos na lua o mesmo sorriso um pouco néscio (os seres poéticos concorrem nesta harmonia pré-divina). A maré está cheia: a harmonia existirá além do texto – nos renitentes anjos do sim? (a escrita obriga a acordos inexplícitos).