Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

ASPIRINA  

Não me revejo na química do corpo, mas dói-me a cabeça. Intuitivamente relaciono a dor com o que ocupa a cabeça, aquilo que simplificadamente designamos por pensamento, trajetos de balões iluminados por dentro, num céu negro. A dor são os entrechoques quando a espiral do vento chupa as imagens e fá-las correr atrás do tempo. Onde antes me apareciam imagens de uma beleza alcançável, até sons de uma voz perdida cantando o que eu nunca saberei dizer, agora é um cenário de escuras labaredas refletidas no aço de um punhal. Outras imagens mais originais introduziriam conotações parasitas na significação punctiforme da dor e da geometria impossível que faz um ponto inchar até ser uma esfera maior que a cabeça onde bolas de chumbo ocupam o lugar da copa das árvores que a ventania arranca. Assim, mantenho a metáfora sem uma especial crença na inspiração nem na lógica de conjunto que transforma uma ramagem de pinheiro numa árvore de Natal. Dizem que o corpo tem vinte triliões de células todas com o mesmo genoma. A minha dor de cabeça é uma rebelião contra tamanha monotonia. É impossível que tal organização seja sempre silenciosa, apenas procedendo por rotinas como um exército que atravessa os Himalaias mantendo coesão e disciplina. Uma rede de mensageiros articula os passos dos soldados que replicam uma lógica de grupo. Esta isenta-os da benevolência de antigos aldeões; dispõe à expressão dilacerada da morte que, numa estrada de arrancamentos, pontua uma saúde invertida. A vida como uma anti-aspirina numa equação que otimiza a dor, que espicaça as violações, que cede à sodomia lancinante dos mitos, à pilhagem cega – e que, por humilhação, acaba vencida.