Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

assuntos literários

Gostamos de reservar para a poesia os assuntos sublimes. Também os momentos em que o homem se transcende ou quando escapa heroicamente das suas rotinas. São ocasiões excepcionais de que só falamos quando estamos apaixonados ou afetados por uma inquietação que perturba o que as coisas são (ou parecem ser). Uma pessoa muito atraente com quem nos cruzámos no elevador e desapareceu evoca-nos imagens literárias muito fortes sobre o destino e sobre o amor, mas o que lamentamos é não ter tido a oportunidade de a abraçar. Não vislumbrámos qualquer pretexto menos ridículo para entabular uma aproximação, ouvir-lhe a voz, provocar-lhe um sorriso ou, até, uma resposta inteligente ou irónica ou compreensiva à nossa gaguejada pergunta. No estilo literário clássico seria melhor que nada dissesse e partisse com o seu mistério. Mas a poesia contemporânea pode-se abrir a todos os devaneios, a todas as formas de amor, a todos os estados de plenitude. Se a pessoa no elevador atende o telemóvel, ficamos a saber demasiado sobre ela, sobre o seu contexto social, sobre o seu estatuto. De repente, a figura esfíngica, um impenetrável colosso de desejo, é uma neo-realidade dramatizável num longo poema amarrado a efémeros eflúvios do poeta perante a sua personagem. A pior reação seria ao detetar a nossa admiração, apregoar que a afetividade é um assunto sério e que há locais próprios para os encontros como os jardins públicos ou os salões de baile aos domingos, propícios à derrapagem dos desejos e que, portanto, não devemos sujeitar o outro à interrupção do seu empenho profissional por um capricho erótico mal disfarçado. Depois disto só um poeta visionário com uma grande alma e uma grande retórica escreverá um sucinto haiku: «O rouxinol ao pousar| quebrou a breve orquídea.| A natureza e a abelha continuam.».