Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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atitudes para com a literatura

Continuo sem uma boa razão para recusar o prémio Nobel, ou outro que me oferecessem. Penso que hoje se perdeu a ideia de literatura e a ninguém se aponta responsabilidades, como um vinho passado porque envelheceu em condições desadequadas. Os juízes do prémio trocaram o vinho passado por laranjadas e refrescos açucarados, mas já não passam longos serões a ler. Dizem: «Tudo é literatura, uma receita vegetariana com 33 ingredientes, o manual de um revólver, os avisos contra os carteiristas do metropolitano, a legenda de uma fotografia porno. A literatura já não precisa dos autores, nem das revistas que os cultivavam, nem sequer dos jornalistas. Hoje criamos os acontecimentos e fazemo-los circular. É isso a literatura, o teatro dos nossos fracassos, a ficção de devaneios envergonhados, o ensaio sobre a inutilidade do boletim meteorológico. A poesia são tretas cantadas com gaita de beiço». Os filósofos são os agentes das maiores confusões conceptuais dos últimos séculos. Muitos dedicaram-se a géneros inqualificáveis a que impuseram a sua frouxa virilidade em temáticas recuperadas de folhetins radiofónicos cor-de-rosa. Dizem ininterpretável a realidade: a cada um a sua consciência, a sua estética, a sua epistemologia, a sua axiologia, a sua metafísica. Portanto, a cada um a sua literatura, prémios Nobel infinitamente partilhados por todos os cidadãos, cada jogo de linguagem tornado efetivamente lúdico – a filosofia como comédia, a literatura como extensão da gargalhada. Cada nova teoria deve ser cada vez menos universal de modo a albergar todas as obsessivas ruminações sobre a literatura individual. Desapareceram os visionários que escreviam numa grelha de nexos flutuantes. Eram a versão dura do circo. Perderam-se. Perdemo-los, mas, hoje, não temos outra forma de fazer o pensamento pensar. Não podemos dizer isto de outra maneira; grassa o entretenimento com uma literatura embevecida pré-masturbatória – estéril apenas porque nenhum sentimento agarra o gesto: esse prazer multiplica-se, esse prazer dói, esse prazer premeia a derrota. Ninguém nos canta uma canção desafinada, madrugada dentro, quando não temos sono nem nenhum lugar para ir, o que é uma boa razão para recusar o Prémio Nobel.