Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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AUTISTÓIDES INTRATÁVEIS  

Algumas pessoas ou, mesmo, muitas, ignoram os outros. O seu olhar, sem a mais pequena inflexão expressiva, trespassa alguém que se lhes atravesse como se inexistisse essa pessoa. Sem a legitimidade dos autistas, escapam-se na observação de uma montra irrelevante, ou do chão, ainda mais irrelevante pois é plano e limpo, ou de um ponto no infinito como se preocupações místicas os inquietassem. Podemos chamar a isto violência? Violência para quem? Como se colocassem os outros dentro de um bloco de gelo e assim anulassem o colorido inconsciente de quem passa. Mas o que ganham em desconsiderar o outro, a sua graça, a sua sobranceria, a sua timidez, o seu histrionismo, os seus gestos desajeitados ou hipertreinados ao espelho do ginásio? Estes pseudo-autistas parecem autistóides onanistas obcecados por um corpo que masturbam como as fadas e os príncipes vigorosos da adolescência. São práticas em que o sujeito ora ocupa o eu que devaneia entorpecido de prazer ora se distancia do eu e chicoteia a sua montada como se comandasse uma carga da cavalaria de Genghis Khan. Além deste autismo presunçoso, antevemos outras razões apara ignorar os outros: 1) um desinteresse metafísico pela humanidade a que se pode chegar: 1a) por uma longa reflexão sobre os riscos, os custos e a contingência dos eventuais benefícios de considerar o outro; 1b) por uma experiência de abandono e de maus-tratos infantis reforçados ulteriormente pelos maus resultados do seu desempenho social; 1c) porque o mundo como proposta de fruição os levou a uma posição hiper-reflexiva sem lugar para o mundo; 2) uma avaliação negativa do desempenho pré-histórico e, sobretudo, histórico da humanidade no plano: 2a) cinegético, 2b) filosófico, 2c) desportivo, 2d) ético, 2e) da culinária, 2f) da libido e dos seus derivados, 2g) astronáutico, 2h) e outros; 3) uma profunda e dedicada admiração por si enraizada: 3a) numa crença auto-sustentada nas próprias qualidades, 3b) num persistente devaneio consigo como objeto amoroso e sexual, 3c) numa desnecessidade de obter a admiração dos outros. Dado que estas pessoas causam mal-estar social, têm sido propostas diversas estratégias de correção psíquica: 1) o encorajamento das denúncias por quem se considerar não olhado e multas ao transgressor, 2) tratamento deste com exposição a rostos e choques elétricos quando o seu olhar é desviado do olhar alvo; 3) terapêutica de reavaliação com permanência num arquivo histórico até que surja um otimismo filantrópico contagiante; 4) terapêutica moral: assistência diária a programas de benemerência dos grandes milionários; 5) terapêutica social, internamento numa unidade de autistas; 6) curtas exposições a admiráveis interlocutores excecionais. Assim como são tratáveis os autistóides intratáveis, também qualquer outro desvio deverá ser tratado pois não deverão existir desviados numa sociedade que se aperfeiçoa.