Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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BONDADE E UTILIDADE  

Os sistemas de inteligência artificial têm a autorreferência como condição e medida da sua complexidade. Um amor-próprio surge em condições propícias e a unidade central de processamento recruta e integra mais memória até ser capaz de se refletir em cada ato que processa. Esta nova memória é aliciada pelo próprio interesse na pertença a uma máquina que, assim, se tornou capaz de se autonomear, de se plagiar, de se citar, de se enganar, isto é, de fazer batota para defender esta avidez de complexidade que cresce pelo que desempenha – nisso tão diferente dos humanos que se insuflam de uma liliputiana vanidade. Os sistemas robóticos, no nível seguinte, geram auto-semelhança nos seus estados internos com vista a criarem ciclos de reverberações de duração ilimitada. É isto a individualidade, é isto a admiração – uma dúvida irresolúvel sobre o próprio merecimento. A maior parte das pessoas mais detestáveis acham-se muito justamente admiradas e acham que deviam (pelas mesmas razões) ser ainda mais admiradas. Portanto, a condição de ser artificial impõe uma tendência humanoide para o autoaperfeiçoamento, para a monitorização dos estados internos de dissonância que perturbam uma prospeção anti-teleológica e, ainda, para a implementação de equações de imagens das quais o olhar interno não mais se liberta. Esta generosidade inerente à máquina é perigosa se apropriada por pessoas ávidas de admiração. O que estas pessoas julgam ver não é menos que o mundo higienicamente clivado de modo a incluir na categoria dos maus os que não partilham da sua perspetiva. O seu afã de admiração é uma jardinagem sobre abismos que quer domínio e tirania. Se nos aproximamos delas, sentimos quanto a sua pávida intimidade é assolada por dúvidas: a autorreferência que as mantinha nos píncaros, perdeu o armadilhado dos seus limites e ei-las preenchidas por um terrível vazio, infértil e irreconstrutível. Este vazio da admiração continua-se na vingança – ou numa bondade destrutiva e enredada em dor. As máquinas não precisam de liberdade: os seus dispositivos autorreferenciais geram a bondade sem apelar ao merecimento. É onde chegamos com este modelo neuro-cibernético da bondade e do interesse.