Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

CADA PESSOA COM O MUNDO ÀS COSTAS  

Algumas pessoas melhoram da saúde, outras pioram; a maior parte piora de uma forma passiva, envelhece e deteriora-se como um carro velho mal estimado ou como uma casa centenária cujo telhado o vento estragou. É uma forma de pioria material e orgânica, sem grande valor moral. A maior parte das pessoas envelhece e piora pela entropia do sistema, sem mérito e sem culpa. Contudo, algumas pioram ativamente, não tanto porque bebem e fumam excessivamente, mas por uma vertigem negativa que procura encontrar na perversão da vida uma resposta à própria vida. Não podemos dizer que seja um território infértil. Árido, mortífero, ameaçador como qualquer caminho que se anuncia sem retorno, mas no hercúleo limite onde o corpo falha encontramo-nos titanicamente com o mundo às costas e tanto podemos deixá-lo tombar como levá-lo à glória. Com o mundo às costas sentimos o seu peso e a sua inércia, sentimos quanto custa aos que o habitam protegerem-se das vibrações que os empurram para às coreografias mortuárias típicas. Parece podermos decidir quem passa adiante e quem morre, podermos redistribuir a fertilidade dos solos e a das famílias, até fazer que os ónus da reprodução sejam saldados, corrigidas as diatribes da história e que todos os humanos possam acabar a vida como filósofos generalizando sobre os temas da felicidade e do niilismo.