Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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CALAR AQUILO DE QUE NÃO SE PODE FALAR  

Hoje ainda tive prazer com o seu nome. Pude dizer-lhe: «Amo-te fonte da vida, tesouro de éter, fluxo dos segredos ancestrais da poesia eterna – amo-te final de ópera divinizado e estático. Serei alicerce da tua beleza oceânica. Só tu me ouves, só tu toleras os adjetivos das minhas pomposas afirmações cosmológicas e me ajudas na inaptidão. Sinto os meus olhos de inseto mastigarem uma falsa doçura que me engasga, uma loucura nos planos das palavras que um beijo teu detém». E ouvi em resposta: «Vivo para ti na ilha onde a verdade são as flores de lótus do teu ventre. Quero os sorrisos de gato que aterram no meu peito, quero que ressoem no raro do poema, que das tuas mãos coisas raras aconteçam, assim te amo e espero que a ilha aconteça». Depois de um curto intervalo retomou com surda convicção: «Por ser transparente, percorre-me! Nado no teu beijo de ópio, sou a vaga, a força do temor, a seringa de outrora na gaiola de uma imagem intransmissível. Mistura-me num calor heroico. Que me transfigure para teu prazer». Aludia ao exótico das viagens imaginadas quando se imiscuem na imensidão radical do amor, no derradeiro segundo transigiu: «Na dureza deferente do amor, és a teia que se desintegra, cérebro no gatilho da loucura, ócio de carnaval rápido, beijos de balas». Como se eu fosse o fantasma do pai, a inveja sem ciúme do pai nu, cetro erguido, patético manto levantado ao vento, a sua ensurdecedora sombra, a sua ausência persecutória faz de si um espasmo da sua alma, o espectro de um poema macrocéfalo: «Exigias de mim a síntese de uma cascata, o justo valor da palavra, a água de uma flor. Dizias sermos a primeira referência à primavera; no limbo do espelho, ela, selvaticamente, dobrar-se. Depois, sonharmos em comum um planeta de exímios contadores de histórias». Adornava a nossa intimidade com detalhes escabrosos, assim desfazia o privado com afirmações excessivas. Tomaria a fala como um poder absoluto, mas em que lado do espelho germinava a semente? Disse-lhe: «O mar reincarna-te, as alegres gaivotas não são alegres quando recitam os orifícios por onde o teu corpo se escapa. Sou o mar da tua carne arrebatada na transição para a loucura – um desejar microscópico dos teus minutos derrete-me a vontade, puro material do tempo». Cantigas de amor correm por campos floridos até ao recanto do bosque onde o eco se multiplica: desencontro: cada som desmaia numa lágrima: foi assim o amor, a compreensão total de um delírio para sempre triunfante sobre a fome. Deitámo-nos, estrebuchámos fusionando-nos no maravilhoso parto de uma lua – atrás do cenário, quem sabe o que estará a acontecer, o que irá acontecer? Mais vale calar aquilo de que não se pode falar.