Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

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CARCINOMA  

O meu amigo tem um cancro, a minha tia tem um cancro, o meu cunhado tem um cancro, o meu irmão tem um cancro, o meu colega tem um cancro e eu ignoro se não terei um cancro, mas penso ser necessário saber em que ponto da vida se está. Ignoramos como a racionalidade nos trouxe o interior da morte, mas é donde extraímos as leis, é como fundamentamos a separação entre as leis que protegem os ricos e as que dão do estado uma imagem meritória e bem organizada que quase parece convir a todos. Aqui podemos fazer entrar as diversas sensibilidades sobre métodos de transformação social. Muitos de nós preferimos precipitarmo-nos num salto em frente abrupto, logo defenestrando os representantes de uma ordem anterior sem entrar em detalhes nem em avaliações de responsabilidades. Os antigos estadistas tinham asas na cabeça e uma apurada noção da origem das pedras. Todas pertenceriam a uma regularidade inicial e diferenciaram-se no acordo com as leis da paisagem. Onde as falésias se abismam logo os pássaros as esfuracavam, abriam-nas a ovos que nunca germinariam e outros que revertiam o caminho feito. Já não era possível falar de perfeição, mas da desdiferenciação, de células cada vez mais simples acumulado uma riqueza cada vez mais desnecessária, mais devastadora, mesmo. Deveríamos continuar: o milionário tem um cancro, o sistema financeiro tem um cancro, as nações unidas têm um cancro, se a igreja tem um cancro, Deus, quem sabe?, poderá ter um cancro. Continuamos a falar, mas pelos dedos das palavras cresce a dimensão astronómica do silêncio, tudo contaminado por metástases, a desordem como oposição ao ar que se imiscui no sangue e explode na minúcia dos poros. A febre assim desencadeada é, apenas, a face da tortura. Perguntamos porquê, como nos encontraram, ao que é destinado o intervalo entre as sílabas que guardámos para a liberdade, para o esforço linfocitário de inventariar os grandes combates do sentido e encontramos uma vacina sem asas a que a nossa imunidade já não reage. «Todo o corpo é uma metáfora» parece um slogan poético, mas quando recebemos o diagnóstico definitivo e vamos consultar a expectativa de vida que nos reservaram, percebemos escassa a nossa capacidade negocial. Todos os que, à nossa volta, tiveram um cancro dedicam-se à vida sem respeito pelas fases do processo, finalmente têm o futuro nos seus dias curtos.