Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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catar piolhos verbais

Na Sociedade Nacional de Geografia, ao almoço: «As térmitas procuram vantagens para a rainha mãe, como nós num rejubilante supermercado, ou como as anémonas de baixo estatuto depois do combate se aconchegam, ou como as garças usando uma lingerie feroz, ou os alces e os seus sistemas dissuasores que tanto recordam os humanos, as aparatosas armações golpeando o solo para evitar o corpo-a-corpo, a maldade das víboras ou a das guerras atómicas». São conversas indigestas sobre a atualidade política estas substituições conceptuais tal como os filmes de animais mostram o homem com a subtil eloquência das suas metáforas bélicas, a mostrar o pescoço, oferecer o rabo, a ceder a banana e a fêmea para que o estime o paranoico do chefe. Multiplicar as ocasiões e tudo fazer para acasalar concisamente, recomenda o grande contador de histórias atrás da democracia. Depois vêm borboletas com o seu ar de cidadãos pouco exemplares contrapostas às abelhas em modo fascista. Há combates vãos para um indivíduo só – a colmeia é a unidade, a pessoa, um corredor cheio de genes ululantes a quererem sair do barco antes que se afunde como se ela tivesse algo a salvar. As fábulas atenuam as diferenças entre os indivíduos, baixam os impostos, enaltecem o encanto sumário da prostituição, as virtudes da agiotagem; tudo toma a ossatura prosaica da sobrevivência. Chegamos a afeiçoar-nos a um cão ou a um periquito como se essa pertença nos continuasse dentro de uma arca de Noé pessoalizada. Concedemos ao chimpanzé inaugurar a lógica individual. Ao atingir o humano, um espírito ao espelho observa a névoa transparente do nome, fumo, fumo sobre fumo, sobre fumo, sobre fumo cada vez mais escuro até ser impossível pensá-lo. Cada palavra traz o modo adequado de abrir o casulo e extrair indícios de si, o ouro de uma trigonometria perene à roda doutra palavra e assim sucessivamente. Estou quase a dormir de aborrecimento. Através das gerações o meu esgar evoluiu até parece um sorriso satisfeito: a sorte de estar no auge da evolução num universo tão estável, por isso tento esta toada épica de estátua equestre no cume da árvore genealógica com os animaisitos pendurados – são argumentos subsidiários. Só a linguagem desequilibra o homem: em cada segundo do meu pensamento multiplicam-se dezenas de replicantes que observam a estátua que eu sou como eu observo a cinematografia zoófila. Com a cortesia japonesa, sorrimos — o grooming parece agradável para quem tenha carraças.