Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

CLUBE MEDITERRÂNEO

Há um momento na vida em que só resta partir para um clube de férias, desgostoso com a poesia ou para evitar novos imprevistos. Aí troçam da vestimenta, olham-nos como estranhos, jantamos sós, não temos parceiro para o ténis e são eles que têm razão, ou melhor, a razão é um braço de ferro. Percebem-se razões muito fundas desde a forma de ostentar as iniciais ao abordar uma mulher no bar da praia, ao uso de desodorizantes e odorizantes cutâneos e à culinária em geral. Até mesmo em situações difíceis o estilo conta, por exemplo, no gesto de abrir a carteira sem refilar, embora sabendo-nos enganados. Porque a poesia é não gaguejar quando as pontes ruem e se percebe não se poder contrariar a celestial naturalidade da linguagem. Então, é apoderarmo-nos do eco num recanto aluado do medo, ouvir o verso e o reverso. Mais vale esquecer as derrotas, concentrarmo-nos nos objetos pessoais, cuidá-los pelo que nos evocam e não lhes exigir senão um local contentamento. Perto do final, alimentar um desejo íntimo de que as coisas falhem. Percebe-se a sua definitiva insatisfação, mesmo que a mulher nos corresponda, que evitemos os sabores vulgares da culinária hoteleira e tenhamos parceiro para o ténis. Percebe-se a poesia ser um corpo na mente onde algumas coisas se inserem e donde outras são expelidas.