Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

COISAS QUE ACONTECEM OU PODEM ACONTECER-NOS E TÊM QUE CONSTAR NESTE RELATÓRIO

Não me imagino anencefálico. Por um preconceito ligado à linguagem, «imaginar» carece de um cérebro que não se imagina sem a capacidade de imaginar. Se me despir dessas subtilezas concentrando-me no que sobejaria de mim, já imagino algumas consequências sobre o meu estilo de vida. Muita coisa, seguramente mudaria, mas desconfio que exageramos a importância dada ao cérebro. Pessoalmente, aprecio estilos de vida simples: o contacto com a natureza, a amizade de um cão, a jovial presença de um rouxinol e associo uma biblioteca ao pior que a humanidade produz: a vanidade académica, a pesporrência sobre a natureza, a questão do ser em formato de divagação pós-prandial, o plágio como instrumento de assassinato de pessoas que se dedicaram a uma obra, muitas teorias da guerra e do domínio. Como anencefálico gostaria de ter conhecido estes autores, alguns habitam a minha biblioteca. Julgo que iriam reformular muito do que escreveram depois de me encontrarem. Darwin foi o único que considerou o meu caso embora não tenha grande interesse em conhecê-lo dado o seu caráter difícil. Todos os outros escreveram para um ser humano que é uma abstração, uma ingénua idealização de uma espécie que se engana sempre que fala de si. Estou impressionado, em particular com os moralistas que foram incapazes de introduzir uma noção interativa de liberdade, supra-individual, portanto. É a esse nível que o cérebro tem impacto nas nossas decisões. Antes é um mero agente da nossa sobrevivência, demasiado preocupado com as refeições a horas e com a defesa do quintal contra as pragas e os vizinhos. Anencefálico, vivo sem planos; com os meus arcos reflexos simples passeio pelo planeta arrastado por tropismos de hidra como um vulgar turista reformado; não faço planos nem sei o que a morte seja. Para mim não existem senão cambiantes de luz, uma luz pura, luz vazia de forma e de informação, que, se eu tivesse imaginação, me permitiria todas as utopias. Assim, tudo é novidade para mim, todas as formas são isentas de história ou de significação; sou como o plâncton: vagueio pela simplicidade à superfície das grandes urbes onde é possível viver sem rumo; as coisas vêm sobre mim, tocam-me e enrosco-me nelas como um gato e devoro-as. São restos, lixo; proteínas de restos declarados lixo; são a democracia mínima da digestão afetiva das coisas que ninguém quer. Ou fujo delas se são grandes e escuras e avançam demasiado depressa sobre mim. Anencefálico, não antecipo o atropelo, o esmagamento, o extermínio. Fujo reflexamente como humano em pânico. Assim compreendo os movimentos de massas (pomposamente: sociologia) com os quais constroem uma epopeia que me exclui por ser anencefálico. Os outros autores tentam falar-me como se eu fosse uma criança, fazem figuras patuscas, um pouco ridículas linguajando como se recitassem mantras com a prosódia com que falam às vacas. Não me rio porque não me sei rir, nem sei avaliar o que é ridículo a não ser em mim esta premência tão diferente do pensamento. Apenas rio automaticamente quando hesito e rio das razões porque as ignoro, mas sei que se tivesse cérebro me riria de algumas razões importantes: ignorar o que pensar de mim permite-me uma incoerência libertadora, quase alegre. Só ouço a voz do corpo, a que fala de como é simples a felicidade e, até, possível. Por isso, este texto é propositadamente simples e sucinto porque um anencefálico não dá grandes explicações nem tem muito a dizer sobre si próprio, apenas que, se tivesse cérebro, o utilizaria melhor que muitos humanos, mas, assim, um anencefálico sente-se bem integrado entre eles.