Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

como chegar a conhecer a partir dos aspetos das coisas?

O mundo não é feito de detalhes. Detalhes são, apenas, apresentações do que vemos e do que tateamos. Se amamos sentimos enorme isso que vemos e isso que cheiramos. É uma propulsão de significados como se tivéssemos toda a razão para exagerar. O cheiro desse que amamos é a alegria de uma primavera inteira – e a esperança, um caminho íngreme cujos detalhes difíceis ignoramos. Só quando deixamos de amar percebemos que esses detalhes eram descomunais extrapolações que se perpetuavam e estendiam como uma praga de papoilas entorpecentes. Em contraste com os detalhes visuais ou tácteis, os do cheiro numa cozinha anunciam um almoço que se apresentará, nesse sentido as poeiras químicas que cheiramos são detalhes reais, nuvens de augúrios – reais porque não nos enganam e, se cheira a queimado, é porque ficámos sem almoço. Só mais tarde integramos o almoço que pensámos e o almoço queimado numa atmosfera sem prognósticos. É como o cérebro pensa: voa sobre grandes paisagens e julga clara a natureza vegetal que acontece nas coisas; julga estáticas as coisas como as árvores da paisagem que o vento agita e chega a tombá-las, mas nada muda na sua natureza fundamente alicerçada e fácil de nomear. Os detalhes que víamos eram uma realidade recomposta tal como quando amamos, um gesto simples ou insignificante nos parece convidar a uma imaginação truculenta de consentimentos. Por outro lado, a lente, o microscópio ou, do mesmo modo, o telescópio não reconstituem a identidade química dos detalhes – nem a montagem de um aglomerado de estrelas numa constelação é mais do que a montagem da beleza de um rosto: a saliência hesitante dos lábios, o nariz bem fundamentado, os olhos como túneis para uma representação fílmica do eu que julgamos bem conhecer, mas são rotundos os fracassos da intuição. Sim, os detalhes são meras figuras intermediárias da compreensão. Só num poema cada detalhe toma um lugar próprio e uma significação – talvez abusiva, talvez esse convite insidioso à interpretação esteja armadilhado para corroer uma vaidade que precisa de dizer as cores das coisas e o seu destino ao serviço de uma arte sobretudo curativa.