Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

COMO DANÇAM AS PALAVRAS E PARECE PENSAMENTO  

O poema refaz a mente (se isto e se, ainda; aquilo, a hipótese seca) indo sobre auras cerradas. Mas nada nas palavras como num devaneio com alguém que quase nos toca e diz «tudo» com um olhar primitivo (a razão circunscreve – não se fundamenta. O medo). O poema quer partir, ser para isso que é dentro. Largar o que pariu e parece, o que é forma e se desfaz (a vida não se define – interdita-se – seria preciso a coragem de um louco, de um malfeitor em risco, mais uma vez). O que é dito garante o que faz pensar. Termos sólidos convergem numa sombra que abana, que se ramifica; assim as conotações de «palmeira» criam uma escala e uma função que a fazem diferente de «estrela-do-mar». Dizer sem significação, sem desejo; dizer como um enfeite repensado, como a oferta expande o desejo, abre caminho – ou volta a baralhar os termos insolucionados (Eu não posso verificar o que penso, posso não fundamentar o que desejo – a culpa vem antes do desejo, prazer que dói). Com os caminhos assim definidos, um micro-paraíso de saciedades não surpreendentes como um campo de concentração (o poder enlouquece o arbítrio – todos os outros se esbatem – ninguém existe fora da sua intermitência). Tanto faz. Parece que compreendemos o texto, a génese do arbítrio, mas o inconsciente que mata é o coletivo, o monstro é coletivo, ulula sangue, diz a vitória cega (: interpreto-te como da tua mão, uma hipótese). O que escrevo já não é interpretável, são os pressupostos do poema, uma verdade cirúrgica, i.e., definida, delimitada e esterilizada, sujeita às manobras que repõem condições perfeitas (Se falhares o jogo acaba – o poema falha o jogo: desejo branco). Não falo da circunstância como se a vida fosse o agora, um livro aberto, uma página que não li, que ignoro o que possa dizer e não sei se a compreenderia. Não quero pensar a leitura como interpretação, não me serve o direito a opinar, a recriar e a reclamar. Estou mesmo farto do que penso, de um estado de pensar sem acreditar e dizer a pesporrência, a melíflua astúcia. Receio que me digam que sim e não sei se tolerarei que me desmintam. Que razões teria quem me desmentisse? (Não mais fotografar – repudiar o próprio desejo.) As crianças chegam a conclusões mais firmes, dizemos da sua humanidade desarmada e sem anticorpos autoimunes, i.e., uma demonstração de como o pensamento se torna infinito não fora a escrita terminá-lo – até o estilo impõe um final em qualquer texto, deseja que não sigamos Beckett torturando-nos com a recursão das razões em piruetas e pas de deux, maçantes; que sigamos a metáfora do final feliz – os bailarinos cansaram-se, agradecem os aplausos e vão repousar. Interpretaram uma coreografia e uma música minuciosamente pautadas; nós não interpretamos a sua interpretação, deu-nos prazer, fez-nos fome, ceámos e a noite veio, bem delimitada como uma lógica, inaplicável à vida e à dança.