Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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como é difícil fundamentar argumentos filosóficos

COMO É DIFÍCIL FUNDAMENTAR ARGUMENTOS FILOSÓFICOS   Os filósofos não estão, como Lineu, habilitados para grandes juízos biológicos. É verdade que os humanos vivem num universo de palavras enquanto os caniches e alguns animais domésticos mais fluentes apenas compreendem uma dúzia de frases. Mas este mero atributo comunicacional marcará uma diferença de mérito significativa face a comunidades melhor organizadas que a nossa como a das térmitas ou a das abelhas? Melhor organizadas no sentido de uma menor entropia, de uma maior especialização dos seus membros, de uma estratégia reprodutiva muito organizada e nítida que deixa de fora procedimentos equívocos como o amor romântico e a paixão assolapada os quais introduzem na seleção critérios subjetivos volúveis e insustentáveis quando o que está em causa são os interesses da espécie. Portanto, não é elegante o filósofo fazer valer os seus argumentos pró-humanos salientando, além da linguagem, a livre-escolha que torna estocástico o devir social. Será civilizacional esta responsabilidade individual pelo destino da espécie? Vemos uma descoberta tecnológica inocente ser inserida no sistema e logo se estabelecerem redes comunicantes inéditas que tornaram ingovernáveis as manipulações de opinião. Qualquer um se tenta vender ao sabor de frenéticas modas que ninguém lança, qualquer um apregoa micro-utopias com regras originais completamente alienadas do humano, crentes que, essencialmente, o humano se transforma ora em monstro, ora em escravo, ora em robot ao serviço dos seus simplórios mecanismos de prazer. Não há mais lugar para o aventureiro que julga construir o seu destino; todos enredados em engrenagens como abelhas ou como formigas, como cidadãos responsáveis por mecanismos que, na verdade, nem sequer compreendemos nem nada decidimos senão abrir ou fechar a janela por onde espreitamos a humanidade que passa na rua. A humanidade é cada homem enjaulado na sua toca digladiando-se contra todos os outros homens. O humanismo é este ódio tranquilo, cada um com o seu colete anti-balas mais ou menos simbólico, enquanto uns poucos disparam balas ou bombas reais para que se cumpram anseios de felicidade, de perfeição e de justiça mal formulados ou deficientemente globalizados. As regras mudam constantemente bem como os estilos de sobrevivência. Ninguém pastoreia o rebanho, cada humano está hiperdomesticado e ultraconsciente dos seus direitos. Não fala deles, nem luta por eles, nem pensa muito quanto poderiam ser outros, mas surpreende-se quando o comparam a animais domésticos vivendo, também, num apartamento cercado pelos detalhes da própria colmeia, apenas aberto aos apetites que adquirem um certo grau de transcendência e complexidade, mesmo quando o cidadão se desloca no seu veículo ou na sua cadeira do metropolitano. Lineu não sabia para onde a humanidade se dirige – nem o filósofo.