Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

COMO EVITAR A PALAVRA «ABSURDO»  

Sobrevoando a enorme floresta ou numa visita guiada ao zoológico ou ao museu de história natural não chegamos a compreender a vida. Nem vendo as larvas dos mosquitos surgirem do nada no tanque de água estagnada e transformarem-se, nem examinando os detalhes ulteriores da arrevesada arquitetura de um inseto. No sonho, pelo contrário, percebemos o processo que levou o peixe a desenvolver patas, mais tarde, asas e, ao voar, as aves serem invejadas pelos grandes inventores que partiram alguns ossos antes de porem o aeroplano a funcionar. Percebemos o próprio processo, ao historificar-nos, criar uma confusa espessura de causas enredadas umas nas outras que designamos «passado» porque são memória, outras, «futuro», porque são medo ou desejo, e estas que nos fazem escrever um poema que, quando acaba, não é passado nem auspicia nada, por isso o relemos já com poucas correções. Assim adquiriu a vida, algo de sagrado, algo que não é um facto pois não é passado porque a vida não passou ainda, não é futuro pois já existe, nem é o presente do poema pois o que fazemos, somos ou estamos não poderia ser nem estar nem nada fazer sem o passado e sem o desejo, ainda que possamos viver sem amar e sem temer. É quando duvidamos que essa vida seja ainda vida, o mero arrastar do corpo como uma imagem roubada que não descobrimos como venerar. Entretanto, ela desinsufla-se, degrada-se. Mistificámos o momento em que a vida parecia começar, desejo, amor ou mera acumulação de forças que se querem dissipar porque a vida gera excesso, disfunção, crime, mas, também, uma necessidade de concretização, seja num ser que nasce, seja num poema, ou num avião que parte para um lugar que pretendemos descobrir e julgamos inédito. Mistificamos, sobretudo, a morte que é, simplesmente, o momento em que as crias se separam, já adultas e com ideias próprias diferentes das nossas; os poemas estão escritos e as viagens já nos cansam.