Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

COMO OS DETERMINANTES QUE ESBOÇAM O TEXTO NÃO O DETERMINAM

Nos hotéis, os blocos têm poucas folhas. Não esperam que iniciemos um romance de viagem nem sequer um longo poema à arbitrariedade. São folhas finas preparadas para notas irrelevantes, mas recetivas e mansas como prostitutas bem pagas. O tema da neutralidade poética é assustador, a consagração da primavera quando os pássaros vermelhos rodopiam e saltam e rodopiam em pleno salto, abraçam o ar que não existe como imensidão nem como evidência. No auge do salto tocam a nuvem amarela que também não existe nem o lilás malhado a verde do firmamento – o hotel aluga nuvens de cor rosa sem nenhum firmamento pré-definido, mas é estreito o espaço de liberdade e o raio de ação num quarto cuja arquitetura nos convida à normalização. Contudo, acontecem suicídios – a metáfora da gaiola em pássaros de altitude; e acontecem crimes passionais, talvez porque o ambiente asséptico conspurca a nobreza de alguns que não suportam as delicadas negociações amorosas. De qualquer modo, o cliente é um estereótipo de passagem, um autor de descrições cinzentas e exaustivas com detalhes insignificantes cobertos do musgo que leva para casa. Até ao dia do suicídio quando descobre que não fundamentou a noção de «autêntico» a qual só seria relevante se iniciasse um romance de viagens ou um longo poema à arbitrariedade.