Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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COMO USAR MEZINHAS  

Não sabemos se o espírito, se o cérebro, mas em geral, parecem ligados e minuciosamente preparados para a própria racionalidade. Não percebemos como, no instante seguinte, se poderão sentir atacados por um mal que os deixa febris, a pessoa como que desmembrada, encosta-se, melancólica, num canto escuro da casa. É nesta estupefação que nos precavemos contra os acidentes do pensamento capaz de suspeições inverosímeis: que alguém (próximo, mas ignora quem) envia energias negativas que penetram o corpo como se este fosse uma esponja ávida dos fluxos do destino; como se, ao receber esses impactos, a mente enchesse de azares o acontecer dos órgãos, desorganizasse a sua silenciosa unidade, cada um para o seu lado, a pessoa seguisse indícios que sabe irrelevantes, mas está incapaz de rejeitar um mínimo resíduo ameaçador que possam conter. Assim ameaçado, o corpo reage com monstruosos flatos fedorentos capazes de pôr em fuga não só os vivos que nos cercam, mas até os mortos mais recentes. Os pedidos de ajuda emitidos fracassam por um imerecimento que embora pareça injustificado, depressa encontra uma culpa onde enraizar. O eu ainda mais amachucado, cada vez mais incapaz de se defender, mais desorganizado, perde o controlo do que lhe acontece, do que vale, do que pode esperar: está à mercê, desconjuntado, todo o seu funcionamento é alarmante, cada instante um sobressalto. Tentamos ir além, mas é quando tomamos consciência de ignorarmos como uma pessoa se reúne coesamente no amor ou num gesto fanático ou numa circunavegação que não sabe onde a conduzirá. Recorremos a mezinhas que são arreigados artifícios semânticos para tratar as rachaduras do corpo. Pode-se falar de uma teoria do uso mais do que de uma práxis tradicional minuciosa: como preparar o pelo do rabo de gato com a banha da galinha para tratar o sarampo ou como escrever as rezas com sangue de ratazana ou como fazer um bêbedo ganhar aversão ao vinho com o pó de uma sardinha posta a secar durante um ano. Os ingredientes das mezinhas são símbolos de uma magia lógica que usa o nojo da palavra, usa a sua negação, usa a sua mentira como derradeiro recurso da racionalidade.