Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

COMPÊNDIO DE PEDAGOGIA CRÍTICA  

Tudo difere de lugar para lugar. Um pinheiro ou uma cabra não são iguais criados na montanha ou no litoral, num parque urbano, no cemitério municipal ou num jardim zoológico. Da mesma forma, as ideias transformam-se com o meio social (as que surgem na taberna, numa reunião de conspiradores, no morno do leito, aparecem-nos, mais tarde, engalanadas e em boa companhia quando nos visitam numa reunião de matemáticos, na assembleia municipal, no diálogo com um amigo de infância, nos desabafos a um amante ou na mesma taberna, noutra reunião ou no leito conjugal); cada época produz impactos que não conseguimos absorver, o que dá origem às células neoplásicas que mais tarde teremos de operar. Os grandes estadistas estudaram os profetas, prepararam-se para os reveses irracionais, não contam com a inteligência dos cidadãos nem com a dos seus correligionários, mas os poetas não resistem aos energúmenos que fazem as opiniões simples que todos papagueamos no jardim infantil dos demenciados. As ideias têm que ser simplificadas e articuladas na democracia para não nos despertarem aterrorizados como se tivéssemos naufragado no tempo. É neste sentido que os homens perderam há muito a sua natureza, tornaram-se repetidores de provérbios manhosos, invocadores de deuses apropriados. Muitos de nós, os mais crédulos, sobre-investimos numa identidade de paciente observador de astros que não triunfa na atual epopeia do mérito imediato. Somos ultrapassados por miríades de super-heróis hiperconfiantes com os estadistas à frente visivelmente equivocados. Intimamente descremos, mas é deles que falam os eruditos académicos da normalidade e aceitamos que devem existir mecanismos de controlo social subtis ou até inaparentes. Eles não duvidam o que é bom para o sono e para a digestão e explicam o que acontece sem atingirem o que neles se transformou nem apreciarem convenientemente sequer os trejeitos domésticos e amorosos no parque urbano da sua existência. Assim, quando passam ao cemitério municipal só pensam no eterno descanso como fizeram ao longo da vida. Acontecimentoides dominam os sentidos. Estes regem-se por margens de contraste. A multidão reage a contrastes, cada um, isolado, tem consciência de que não pode escapar. Ao amar esquece, ao consumir perde a alegria inicial e vomita, embebeda-se e também vomita, perde a fé e mergulha numa bebedeira de fé com morte por imolação virtual. As coisas parecem iguais, eu, sexagenário, pareço igual aos meus filhos de dois anos e se diferimos na linguagem é porque estou distraído a observá-los. Partilhamos o mesmo lugar por uma conveniência naturalista, mas nem tudo está decidido e não lhes ensinarei os meus provérbios nem as minhas manhas e se admirasse deuses e heróis mostrar-lhes-ia que também as árvores persistem longamente sem o propósito de resistir.