Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

contra o entorpecimento

As drogas sempre serviram para dar a ilusão da libertação. Não da liberdade – qualquer pessoa que as use sente constrangerem-se as suas escolhas, percebe o poder de substâncias que se imiscuem no íntimo do seu mecanismo de decidir, sentem o seu potencial de submissão, sentem que poderão ficar escravizadas para o resto da vida. Desvalorizar a liberdade é o custo do seu prazer. Mas, da mesma forma, o jogo e toda a parafernália de dispositivos de entretenimento virtuais. Apoderam-se, no cérebro dos mesmos dispositivos motivacionais, levam a pessoa aos mesmos ciclos de gozo seguido de uma saciedade cada vez mais periclitante. No Admirável Mundo Novo (de Aldous Huxley), as pessoas nasciam (eram produzidas) para um destino inscrito nas necessidades do sistema e eram condicionadas a servir essas necessidades através de um sistema de recompensas, nesse caso uma droga, o Soma. É um retrato terrível do que seria uma sociedade perfeita, uma sociedade estabilizada através do controlo implacável de cada cidadão segundo o modelo de um gigantesco formigueiro. Devemos repensar este aperfeiçoamento social que nos faz escravos. Devemos recusar uma racionalização dos recursos e dos procedimentos que meramente nos recompensa materialmente, mas deixa de fora aspetos da natureza humana porventura os mais nobres. As sociedades desenvolveram uma poderosa indústria de entretenimento que é preciso recusar: recusar as canções da treta, recusar os filmes da treta, recusar os romances da treta, os poemas da treta, o teatro da treta; recusar ir às compras pois quase tudo do que é necessário não é necessário. É preciso tolerar o aborrecimento pois mais vale que o entorpecimento. É preciso desocupar o ócio dos cidadãos para que possam estar sossegados a pensar.