Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

daqui para a frente

Todas as pessoas com mentes intertextuais no sentido pós-moderno tal como os livros são plágios à imagem da originalidade das pessoas. Cada uma absorve restos do noticiário, troços do último sonho, mandamentos da catequese e das aulas de educação sexual. É o que alimenta um fluxo, por vezes atroz, de um glaciar para a câmara obscura onde impera uma frágil luminosidade. Não percebemos a matéria deste real que supera os cenários da evidência: no cimo do monte, o pequeno espetador da imaginação com o seu ecrã-altar-de-catedral, vê as pessoas desfilarem como se apresentassem modelos de vida. Algumas reencontramo-las já anestesiadas no bloco operatório, outras com as agulhas da acupunctura exploram o limite da insensibilidade, ainda outras passeiam entre miniaturas chinesas num jardim artificial e é provável que os mecanismos falhem ao fim de pouco tempo. É preciso considerar hipóteses arrevesadas, mesmo utilizar recursos químicos insólitos para que as coordenadas se ajustem numa dança de pianos e locomotivas. Tenta-se vencer a própria definição de geometria: pautas e carris eliminarem o seu rigor paralelo fazendo prevalecer o desejo sobre um ordenamento do mundo baseado na fixidez do espaço. Todos queremos a perfeição de uma semente de araucária como se cada momento das nossas vidas se dispusesse numa peregrinação entre uma surpreendente picada de melga e um astro-rei donde a luz vem e, aparentemente, nos vivifica. Assim, cada passo ora cumpre um destino ora, como um texto se rebela, procura levar mais à frente uma carga poética que não toca o essencial. Como serão os ócios da humanidade com as unidades de prazer escrupulosamente contabilizadas e competindo entre si? As pessoas precisarão de estímulos dolorosos especiais que lhes avivem os contrastes de um perpétuo êxtase. Assim, estáticas, viverão a metamorfose do tempo moldando as emoções com uma ampla farmacopeia. Por isso, um poeta que tenha passado a vida a escrever sobre a perfeição nunca mais será lido, os livros apenas tratam das incidências do absoluto. Os arco-íris da poesia serão recebidos de olhos fechados com a comoção doseada e taxada como artigo de luxo.