Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

de como a linguagem é crucial no domínio sobre o cão

Corpo de cão, morto. Corpo morto, pesado, fiel. Cão fiel morreu num hospital veterinário, depois de várias cirurgias e outras intervenções medicamentosas. Morreu, mas não como um cão. Nos hospitais não há uma ideia clara do que é a morte: é um estado final a que se pode chegar por muitos caminhos, todos eles percorridos a contragosto, mas em comum apenas têm uma total falta do ânimo. O hospital interpõe-se no caminho da morte. Diz que sabe barrar-lhe o avanço, mas não sabe o que é o ânimo. Mesmo num cão, o que é o ânimo de um cão, ignora-se. Ele corre, lambe, ladra, espoja-se, come, dorme e acorda vigoroso; mas quando isto se perde, nós perdemos o cão e o cão perdeu tudo. É um corpo, fiel ao «isso» que desapareceu. O corpo fez que «isso» desaparecesse. Era-lhe fiel e fez que desaparecesse o que é uma máxima traição ao «isso». A morte atraiçoa o ânimo e este é indefinível fora da sua subjetividade motivacional para existir preenchendo com prazer as condições básicas da existência caraterísticas do cão de modo que quando dizemos «cão» queremos dizer que ele corre, lambe, ladra, espoja-se, come, dorme e acorda vigoroso e quando acrescentamos «morto» queremos dizer apenas que ele já não corre, não lambe, não ladra, não se espoja, não come e dorme para sempre, nunca mais acordando e esta redução das funções vitais a zero, a um vigor nulo, a uma subjetividade totalmente apagada, a uma não-presença num memória sem referente fora de um passado onde aquele a quem o cão era fiel e o cão partilhavam a construção das respetivas subjetividades. A palavra crítica é «fiel» que se aplica ao elo entre o cão e o seu «isso», entre o cão e o seu dono, entre o «isso» de um e de outro. Quando o dono do cão percebeu que o «isso» do cão começou a fraquejar, iniciou um processo de interação tecnológica com o ânimo do cão, uma equação com várias incógnitas que, ainda que se resolvesse favoravelmente, nunca verdadeiramente revelaria a natureza do ânimo. Não se trata de analisar uma relação de domínio, mas se cão e dono, ambos têm corpo, ânimo, subjetividade motivacional, memória, porque é que o dono domina o cão? Apenas porque não se espoja, não ladra, não marcha com as quatro patas, ou haverá qualquer coisa mais específica como uma vontade de domínio a que a linguagem obriga?