Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

de como apenas a violência remove o homem do centro da evolução

Estamos no auge de uma experiência bucólica acompanhados por alguém que se afigura disponível para nos acompanhar todo o futuro. Sentimos no corpo uma atração geral pelo seu corpo, um processo vivido com um harmonioso agrado cósmico. De súbito, uma dor puntiforme lancinante no sovaco esquerdo que não podemos deixar de atribuir a uma formiga que deixáramos passar, generosamente, no banco de pedra, uns minutos atrás. Mordeu-me por motivos que consigo imaginar a partir de uma invertida empatia. 1) Desde logo sinto a diferença de escala com um sentimento de superioridade que me parece inútil justificar: é uma crença antropocêntrica de que estou no topo da evolução e, 2) que a formiga é um mero elemento sem individualidade de um meio que ocasionalmente me agride e de que me tenho que defender. 3) Cheguei a sentir pelo seu comportamento aparentemente curioso o mesmo que se observasse uma criança que explora uma gaveta: pega em cada objeto, sacode-o, leva-o à boca, chocalha-o contra o chão antes de o largar para se dedicar ao próximo. Depois de mordido compreendo que a sua aparente curiosidade difere da da criança, antes se subordina a uma ordem específica que a amesquinha como indivíduo. Desprezo tais sistemas, desprezo as coisas feitas simples em nome de uma qualquer totalidade. 4) Penso que não compreendo a sua simplicidade de elemento de um sistema que colhe os benefícios do seu trabalho de exploradora, mas não reconhece os interesses de cada elemento da comunidade – fora desta fórmula o que significam as inflexões do seu trajeto? Já não me ocorre falar de liberdade nem de determinação: talvez um detetor de feromonas explicasse essas inflexões no trajeto, mas o que determinou a libertação das feromonas que determinam o trajeto? 5) Não sinto simpatia pela formiga rainha que suponho existir e dar sentido à ordem do formigueiro. Não gosto da sobrespecialização de funções: cada indivíduo no seu nicho sem visão de conjunto como pode decidir sobre o destino do conjunto? 6) Porque me mordeu agora e não antes? Porquê tão perto do coração que carrega uma tão pesada simbologia? 7) Porque não me teme? Despreza a minha disposição à violência ou despreza a sua vida? 8) Não antecipou o risco de ser morta malgrado a desproporção entre a dor de me morder e a minha reação de a matar? 9) Deveria considerar outra resposta?, matizar a vingança – apenas prendê-la, torturá-la, mas não a matar? 10) Ou matar a formiga não é matar, mas apenas eliminar uma ameaça que pode morder de novo? 11) Terei ficado tão traumatizado pela dor da mordidela, que esta ofuscará o agrado da paisagem com tão estupenda companhia? Nietzsche dizia que sem dor não haveria uma impressão na memória de uma experiência, uma aprendizagem, que, enquanto o agrado da minha feminina companhia se esvanecerá em mais agrado, a mordidela da formiga me fará procurar outros lugares para namorar, uma biblioteca, um cinema, e a não voltar ao campo sem repelente de insetos.