Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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DE COMO AS COISAS FUNCIONAM

DE COMO AS COISAS FUNCIONAM   As mães engordam. Há nisso uma beleza que não pertence à beleza. Mães belas cedem a beleza do corpo a uma espécie de primavera hormonal que lhes entra no corpo e que só elas veem. Nós, implacavelmente, vemos que engordaram, que já não devaneiam com uma sessão fotográfica para um calendário de pneus, nem se dispõem a um encontro com alguém atraente vindo do seu passado porque já não acham ninguém merecidamente atraente. Como se a fertilidade da espécie dependesse de uma receita de harmonia que só elas conhecem. A comida é um símbolo, comer é participar na epopeia económica da civilização – com um hino. Algumas mães não engordam, mas a gravidez alterou a sua imagem do corpo e da sua beleza. São obesas virtuais no sentido de uma sofreguidão que não é calórica, mas de paz e justiça que as pode sublevar contra todas as formas de autoridade. Tal como as outras mães, despem o soutien sem qualquer preocupação de elegância, como se agarrassem uma arma e ameaçassem os que dominam. Como se a sua anterior beleza significasse submissão aos tiranos e a todos os que tiranizaram ou que gostariam de, alguma vez, ter tal poder. A gordura significa desdém, significa outro domínio dos mecanismos de prazer, outra compreensão de como o prazer move as coisas e move a maternidade e como a maternidade pode não significar submissão. Mas pode significar domínio e muitas mães que engordam não resistem a dominar quem possam dominar.