Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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DE CONSTANTINOPLA A ISTAMBUL OU LISBOA

Chegou o momento de desistir de algumas ideias, de afundar equações numa noção retumbante de erro. Não se trata de julgar e de concluir, mas, desde que cheguei, só sei viver desta forma anti-proustiana. A idade tem-me esvaziado: o Taj Mahal, as pirâmides, o túmulo do rei-amante ocupados por turistas, assim, tudo se presta. Prefiro as paisagens desabrigadas de qualquer lugar, é como, em viagem, acalmo uma avidez de centração que não se sacia, não chego a fundamentar um poder aéreo em tensão com o inevitável apodrecimento das temáticas. Pelo caminho, um falso tédio do ser constitui-se e desfaz-se, toda a viagem arrepanhado na trama do epílogo ou num esforço de propositar a toada da sinfonia de odores no Grande Bazar. Procuro uma sucessão de panoramas pré-históricos como se neles pudesse sedimentar uma autenticidade que qualquer viagem desmente. Os odores e a cidade pertencem a um ciclo de visões que nos fazem assim e só podemos viver como se nada mais existisse, na cidade, na alma ou no cemitério das sílabas. No túmulo de Mamud Paxá percebi a morte, uma estratégia de homogeneização que hoje é um nome, uma esperança de ordem convertível em beleza, como no amor, por exemplo, ou numa estética da atração. Hesito. Apesar de aos sentidos ser transportada uma irrecusável epopeia da matéria, quilowatts de memórias solenes prometem o deslumbramento num lugar específico (virtual ou não, é a viagem). No essencial, nada se revela nas palavras. Cobertas de neve as ressonâncias das tumbas materializam a volúpia das batalhas decisivas do império otomano. Aqui, cada pessoa tem uma pistola e um beijo para dar, a mão estendida ora pede esmola ora quer apenas ser apertada. Numas, a humanidade perfila-se em uniforme de combate, noutras, os olhos massajam longamente o meu aspeto e oferecem guiar-me pela cidade cujos muros nos envolvem numa bebedeira de estrondos de que é difícil despertar. Então, arqueólogo da minúcia, submeto a civilização à aprovação científica (uma hermenêutica difusa). A imagem, não o nome, o sorriso branco, a não-presença, a intuição como esconjuro (o que arrasta o fracasso). As pedras cobertas de fumo, os banhos desenlaçados, o harém da novelista na Mesquita Azul dão a cada instante uma invalidez hipocondríaca; o que anula coloca-se além da tessitura das palavras, cerrado na placenta do autismo. A imagem avulsa faz de herói da própria sobrevivência como um anjo morto se acaricia no delírio do corpo, mas é apenas a culinária da traição, uma anti-identidade. As guerras santas entrosam-se nas sílabas de «Constantinopla» e de «Istambul», mesmo de «Jerusalém». Mulheres gritam, crianças arrancadas, relinchos, odor de sangue, labaredas lavam a cidade de um sonho de interrogações. O ódio exercita a opulência minimizada da morte, o julgamento estético da crueldade, que era uma fé de hipóteses em Artaud, aqui diluído num obcecante silogismo. Ínfima matéria de consensos, de nomes separados da alma, separados de mim, apóstolo de um ativo nada. Tento as interrogações emudecedoras, a submissão e a euforia de uma catálise global. Contenho a revolta de um escravo e a necessidade de ordem de um filósofo. Cruzo as palavras pintadas nos muros com as orações das montanhas sem distinguir a violenta torção dos factos numa dor inlocalizável. Perco-me numa literatura imensa na qual ainda procuro uma razão. Em Istambul, a intimidade da censura silencia-me, o seu Bósforo fragmentado de sons anómalos denunciam o sultão maldito, quase-apenas-espetador do puro pulsar de si em cada personagem do harém assassinada. Tomar as delícias da vida sem me desnortear como ele (viagem por uma moralidade tensa). Resguardar da ação o desejo, resguardá-lo do que enlouquece; narrar tintim por tintim as matérias inconclusivas porque as coisas entre pessoas são protocolos por vezes insustentáveis ou afirmam uma imaterialidade latente como os aromas do Bazar, mas transportáveis de Constantinopla a Istambul. Ao aterrar em Lisboa dedico-me ao artifício simples da absoluta desnecessidade: a poesia da estupefação é um protocolo de leitura do mundo. Um texto deve ser protocolar, surpreender como a mim este pôr-do-sol apocalíptico por ser literário.