Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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DIALÉTICA    

Já não se pode falar de desejo, mas de proximidade – que é a dança dos momentos quando têm duas origens e convergem. É uma relação espacial entre dois dispositivos preparados para o melhor e para o pior: 1) seja porque esta convergência ultrapassou o desejo, não no plano fusional, mas no do próprio aniquilamento, 2) seja porque a disponibilidade (e não a saciação) deu lugar a uma desesperada vontade que se foca em qualquer coisa (num semelhante, num clube desportivo, num deus fanatisante, numa coleção de borboletas, no próprio corpo como objeto de culto já separado do discernimento), 3) seja porque a disponibilidade é uma mera projeção da presença (neste caso, do desejo da presença: a ausência), 4) uma projeção no tempo e, 5) no fluxo de necessidades e ações que designamos por «viver a dois». Esta exposição assentou na existência de um consenso sobre o que é «melhor» e «pior», um consenso periclitante em si, isto é, instável para quem o apregoa e ainda mais se se pretende a partir dele regular a proximidade. Por isso, falamos de desejo entre dispositivos a fim de conservarmos a maior universalidade de que os humanos são um caso particular. Lembremos que as pessoas têm idealizações sobre a sua animalidade como se fosse obsceno o que fazem com os corpos uns dos outros, o que deixam fazer e principalmente o que não se permitem e persiste como devaneio escondido e envergonhado. O «melhor e o pior» não se explicitam como amor, não saem da autorreferencialidade emocional de uma expectativa prazenteira que não quer passar à ação. Dizem: «Não é desejar melhor do que possuir?» ou se mais ousarem: «Não é melhor seduzir como se desejasse?»; raramente: «Não é melhor o arrebatamento numa construção totalmente autónoma?». Já não se poderá falar de desejo, mas de uma proximidade intermitente ou descartável – uma divergência íntima e destrutiva. Preparam-se para o pior que é uma desconfiança que imagina e mata. De quem morre dizemos que amava e era fraco.