Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

DISPUTAS POÉTICAS  

Quando me disse que esta poesia era perifrástica respondi-lhe que o seu pensamento anti-perifrástico era ainda mais perifrástico. Não pensava em Freud e nos extensos campos semânticos das suas paisagens mentais, mas na própria experiência poética de falar com todo o cérebro como quando o pintor liberta as mãos e assiste. Sabe o que visa, mas ignora o que colherá: especulações informes, nem sequer aludindo à origem, ao propósito ou ao fim; a nitidez cacofónica do universo numa noite sem luar na cidade às escuras; a confusão de não saber pensar tudo o que vê e que, à primeira vista, pertence a um todo alheio com o qual convive. Tudo isto faz confiar numa ordem e, se as coisas divergem dela, pensamos que a poesia é necessária, como o cão para um caçador cego, de nariz entupido. A minha poesia é um anonimato antonomásico, uma prosopografia autista, os seus elementos sombreiam o verso e este é, ele mesmo, uma prosopopeia. É o seu desiderato: vivificar as musas do passado num formato digital compatível com todos os sistemas de alienação; fazer que, desde tenra idade, o verso se imiscua nas formas obscenas da intimidade, que numa culinária de frescos, a genealogia e o destino sejam, sem qualquer limite, horas conquistadas à morte com o método seguinte: o leitor desenraíza a sua narrativa falsificada do nexo de justificações e álibis que apresentou no interrogatório da polícia e que, atualmente, marcam o que ele diz de si. Passa a pensar-se como sabotador do arquivo central da república; como qualquer cidadão, com a linguagem ludibria para comunicar as suas inevidências, dilata os detalhes, a adjetivação, os certificados oficiais de veracidade e a própria música sintetiza-a a partir de extrações aleatórias de trechos sinfónicos que repete até saturar uma noção de beleza cósmica confortável. Quanto aos aparentes hipérbatos e anástrofes do texto, o meu pensamento nasce sem uma estrutura demonstrativa, limita-se a suspeitar e a encantar-se e, quando solta jardins abandonados, não os compara, afirma-os equivalentes à cidade febril de bares pelas ruas dentro surpreendendo-nos e aos navios encalhados no lodo da noite. Portanto, a que serve procurar as antíteses num poema se elas se formam apenas quando as tomamos como oposições; antes, na estrutura do poema, as revoluções dormiam como sardinhas em lata com os seus egoísmos colapsados numa entidade poética supra-individual: a lata de conservas que é uma boa metáfora do que queremos conservar na cultura e do que guardamos num poema ainda que ele se pretenda separar da cultura prevalente. Nesta poesia perifrástica e digressiva conserva-se a mesma inconclusividade que nos despertam as paisagens quando são magníficas e proporcionam confiança de que se repitam esses instantes de idêntica serenidade.