Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

elogio da cultura

A cultura serve o acondicionamento. É ao que a usamos. Ainda que muitos escritores, poetas, artistas, filósofos que lemos possam ser muito críticos do sistema, lemo-los pelo seu pitoresco como a biografia de Genghis Khan nos diverte. Abstraímos da devastação que provocou, do sofrimento de meio mundo derrotado pelas suas hordas de cavaleiros. Abstraímos do terror e chegamos a sentir alguma simpatia por um torcionário violento apenas porque nos entretém. É ao que serve a cultura, uma informação tornada «arte» de modo a ser pensada abstraidamente, nós acondicionados numa neutralidade própria, como um deus em férias confia que o seu universo se expanda e que não surjam mais humanidades problemáticas. Tal como um deus em férias não intervém no seu universo, a cultura dá do mundo uma imagem de estabilidade: ela apropria-se de Genghis Khan como da Sibéria e de Auschwitz ou de qualquer utilizador de bombas atómicas; as coisas ficam bem explicadas, envoltas numa atmosfera artística que as torna visíveis sem precisarmos de as justificar ou de as tornar decentes. Não que nos tornemos indecentes, não é ao que serve a cultura, mas acondiciona-nos quer neste sentido de até o terror nos entreter quer no sentido de nos adaptarmos a ele e aos seus terroristas. A cultura serve para colocar todas as possibilidades – ela é criativa – a mensagem que passa é que de entre essas várias possibilidades para o universo, o que efetivamente aconteceu, aconteceu por uma necessidade orgânica de que assim fosse e não de outro modo e que se voltássemos atrás numa máquina do tempo, mais valia não interferir no acontecido ao qual estamos acondicionados. Ainda assim é bom que os escritores, poetas, artistas e filósofos continuem a produzir obras que durante um curto instante possam mudar alguma coisa antes de serem absorvidas como Genghis Khan ou as visitas turísticas a Auschwitz.