Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

em Rembrandt, os andamentos fragmentados da consciência

Rembrandt dizia que não há retratos verdadeiros nem uma autêntica verdade onde aterrar airosamente, apenas uma pintura mais conveniente que a memória das coisas construiu à medida do caminho. Como qualquer artista, no fundo da obra o pintor quer a paisagem da perplexidade. Assim, o sublime se introduz como a sua própria explicação numa consciência que facilita as explicações. Parda e informe como a de um recém-nascido, a consciência aproxima as imagens que queimaram o fruto da paixão. «Vem do interior essas imagens como a voz de antigos amantes se embeleza ou se demoniza», dizia Rembrandt dessas mulheres que retratou. A nossa consciência escuta-lhes segredos defendidos por austeros muros, pressente os íntimos festins da fecundidade, os sonhos combatidos quando se evaporam num gesto mais arqueado. Ouvimo-la: «Sim, é o sublime. Nada explica nem ele tem que ser explicado». O sublime que ilumina as grutas e os abismos que ladeiam as ruas principais por onde anda a voz que sonha. O pintor reconhece ínvios os percursos da mente, mas tem que os decifrar. Porque a arte engana, constrói-se sobre a ilusão, sobre o erro, sobre uma vontade de autenticidade que propicia a ilusão e o erro. Sonhar cria os caminhos: os que sabem até onde podem subir, e sobem sempre um pouco mais alto, mas menos do que na compreensão dos sonhos. Esta consciência todos a usam; a do pintor vai além. Lemos a sua pintura como um poema ou como um teatro: na voz que nega tremem as razões do sim; ele tateia cada uma com uma impercetível ironia. Para cada pessoa, o sublime é uma ficção envolvente da qual procura nunca despertar, assim prolongando uma espécie de amor insubstancial porque acha ridículas as frases ternas e nunca chegará a declará-las (também ausentes nos retratos de Rembrandt, em particular nos seus crus autorretratos).