Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

esboço para um tratado sobre as coisas pesadas

Não andamos por aí a perguntar o que é o prazer, nem quando desejamos que ele interrompa o aborrecimento nem quando o queremos gozar com as antenas voltadas para o interior e vêm e partem, pelas autoestradas vazias, os ecos de uma realidade de que duvidámos. Não conseguimos, então, distinguir o que irrompe na minúcia das células, e borbulha, e vibra, e estonteia, e centra as antenas dos sentidos em mais prazer e mais e mais sem que se vislumbre qualquer limite. Domina-nos a expetativa do que o prazer nos trará e este otimismo é um dos seus maiores perigos: a confusão entre um agrado automático inundado de corpo e de uma transcendência que chegamos a dizer «sublime» e, do outro lado, o agrado construído pedra a pedra como se criássemos um mundo e isso nos satisfizesse. A espiral do primeiro afundar-nos-ia não fosse uma biblioteca de hipóteses a bordo que nos sussurra: «Além disso, vai além disso» – ignoramos o que é o «Isso», provavelmente uma parte do corpo que se afasta de nós sem que a possamos observar, como quando, no cais, acenamos ao navio que parte; mas é o «Isso» o surpreendente do prazer, a maré que num instante cresce e inunda sem termos tempo de lhe escapar, ou melhor, sem que queiramos escapar-lhe. Quando pensamos o prazer com as ideias todas arrumadas não nos imaginamos tão transformados noutra coisa, não imaginamos como ele nos desvia do nosso trilho e nos põe a dançar rumba como locomotivas floreadas prestes a dissolverem-se. Poderíamos multiplicar as imagens para o «Isso» que nos toma, para o seu não-consentimento tão desejado, para uma sugestionabilidade de viagens siderais, para uma eloquência que nos emudece. As ideias reverberam como veículos sem destino, contudo, é quando é essencial filtrar o que já não existe nem vale a pena ser pensado. Dominámos o emaranhado do prazer, colocámo-lo no exterior com os seus botões e maquinismos dispensando-o liquefeito e imenso como uma barragem sempre na eminência de rebentar, como os fósseis sonoros do esquecimento nos assolam ainda.