Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

esta época

Não sabemos caraterizar a nossa época. Basicamente, não a sabemos pensar, isto é, distinguir os fatores que a determinam e os objetivos que visam. Assim, olhamos para o estado atual das coisas e perguntamos: «Mas isto teria de ser assim?» o que é uma pergunta descabida pois não temos nem a quem a dirigir nem nenhum enquadramento teórico onde alinhavar uma resposta, mas, principalmente porque a nossa descrição do «assim» falha ou é inconsistente. Ficamos pelos aspetos que a época nos oferece e quando queremos designar uma sua indefinida motorização, dizemos «complexo» como se tivéssemos de nos desculpar por sermos ignorantes. Também a nossa vontade é complexa e não a sabemos definir. Temos motivos fortes tal como a época tem aspetos fortes e simpáticos; temos consciência dos nossos motivos tal com a época anuncia em grandes cartazes luminosos as suas opções políticas que, mesmo desprezando-as temos de as seguir. Tal como a época sujeitamo-nos à nossa própria incongruência sem a corrigir – reconhecemo-la, dizemo-la parte de uma disposição à grandeza comparável a uma sofreguidão sem objeto; tal como a época, falamos de várias coisas ao mesmo tempo dizendo todas verdadeiras e crendo que, no final, farão algum sentido ou que não terão sentido como nada tem sentido. Ou seja, tentamos equivalências entre paradigmas históricos de vulnerabilidade e de resiliência à beligerância das nações e dos indivíduos, tentamos passar a época com vários paradigmas na cabeça tal como nos pensamos, em geral, uns descarados oportunistas. Portanto quando nos perguntam se a época teria de acontecer assim, a nossa resposta ora é afirmativa acentuando que deveríamos ir mais longe na mesma direção, fazer que os nossos erros mais frequentes retundem em proveito de todos e que as nossas boas intenções não causem grande sofrimento aos que nos acreditarem; ora damos uma resposta cautelosa e reticente, que deveríamos antes repensar as próteses que temos vindo a aplicar ao pensamento à semelhança das grandes fábricas onde já não entram humanos e onde tudo o que é produzido se dirige a uma desnecessária satisfação. Acreditamos, sobretudo, que a época muda mais rapidamente do que a conseguimos pensar. Por isso, quando falamos de incerteza, ou de como viver neste caos jornalístico, ou de como adaptar a natureza aos nossos jogos de ócio, armamo-nos de um pragmatismo desonesto e muito eficaz embora não possamos concluir nada sobre o que existe, nem sobre o que deveria existir, nem sobre o que a nossa época deveria ser para nós ou nós para ela. Estamos amarrados a um destino que não viaja, que aparenta voar, mas é uma vertigem, que nos envenena, eufóricos, longevos, quase patetas com uma genialidade desregulada. E os lunáticos que julgam descrever a nossa época ainda não perceberam que a nossa época foi configurada para ser impossível de descrever.