Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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ESTATÍSTICA

Para onde vais hoje com a tua morte debaixo do braço, discutindo futebol como se a tivesses aprazada? Abandonado em ti o teu coeficiente de preservação flutua ao sabor de um ritmo surdo. No crânio, um módulo reptiliano gera comportamentos imprevisíveis que denunciam a tua incerta origem, mas é fora de casa que mais te assemelhas a um gorila já falecido. Irás inventar um direito à imortalidade?, fundires-te no riso simples do jardim com o lago onde os peixes vermelhos tropeçam atordoados com tantas algas adubadas? Porquê a angústia? Não conseguirás garantir o espaço do teu corpo? Acreditarás ainda no que parece real no desejo de alguém?, no teu próprio, como superior alicerce do vento e do destino? A embriologia das divindades dentro da tua vontade voa numa estátua pelo tempo fora. Será tão improvável a eternidade? Sabes como as dúvidas persistentes se resolvem em crenças. Que sejam a boca dentro da tua boca, o motor do beijo e do uivo que faz chegar à frente ou recuar e submergir numa profunda ideia doentia de mundo. Foste tão longe, que te resta senão acreditar? Ressuscitarás envolto numa lenda, a tua obra na lápide de uma rua da cidade, para sempre imobilizado e sem saber esquecer. Será isso a morte? Porque não apenas os teus necessários erros? A vida é um desejo infinito muito fácil de evitar. Dirige-te à tua própria morte como a um facto estatístico: «Durante muito tempo vou continuar a escapar-te, ó morte, despertar no réptil que hibernou, vestir a luxúria dos carvalhos do bosque. Pertence-me alimentar uma primavera resplandecente em mim, sim, a vaga renovação do nascimento para uma nova peça que não decorarei porque quero improvisar. Entretém-te pelas mesas pé-de-galo, escolhe um vudu que me substitua, dá-lhe garantias de vingança e leva-o. Eu por cá fico, com os meus filhos à procura de algo que não seja a incómoda claridade do céu nem o calor soturno da terra».